Política
Governo não pode deturpar o que estamos fazendo, diz presidente da Anvisa sobre maconha medicinal
Os ataques mais duros vieram do ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB), que, em entrevista ao site Jota, acusou o diretor-presidente da Anvisa, William Dib, de ser “pró-droga” e disse que, se as regras forem aprovadas, a Anvisa “pode até acabar”.
No início do mês, Bolsonaro falou a jornalistas que cabe a Terra tratar do assunto. “Ele diz que isso abre as portas para o plantio de maconha em casa”, afirmou o presidente, um entendimento que a Anvisa diz não ser amparado pelas regras em debate, que preveem o plantio apenas por pessoas jurídicas.
O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, defendeu a mesma posição, ao dizer à Folha de S. Paulo ser contra a liberação por ver nela uma forma de legalizar o uso recreativo da maconha.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABM) também se manifestaram neste sentido, ao questionar a eficácia de medicamentos à base de cannabis e dizer que a regulação do plantio pode “causar forte impacto na sociedade em sua luta contra o narcotráfico e suas consequências”.
O presidente da Anvisa diz à BBC News Brasil que “a sensação que dá é que as pessoas não leram o projeto”. “Queremos discutir ciência e medicamentos à base de cannabis. Misturar isso com o efeito deletério das drogas é misturar assuntos divergentes.”
Quanto à acusação de ser a favor das drogas, Dib diz ser um equívoco de Terra. “Nunca tinha ouvido esse tipo de coisa. Acho que ele me conhece muito pouco. Nunca dei nenhum tipo de declaração a favor das drogas.”
O presidente da Anvisa afirma não haver problemas se Bolsonaro e seus ministros discordam da proposta e se manifestam contra, mas afirma que seu papel “não é polemizar com o governo, muito menos com o ministro Osmar Terra”.
“Não vamos ficar atacando pessoas nem dizendo o que são ou deixam de ser por um projeto baseado em pesquisas cientificas”, diz Dib. “Cada um faz o que acha melhor, só não pode deturpar o que estamos fazendo.”
Apoio da ‘maioria esmagadora’
A Anvisa autoriza o uso terapêutico de canabidiol (CBD), um dos principais componentes da maconha, desde janeiro de 2015.
A substância era proibida, mas, à medida que pesquisas demonstravam efeitos positivos para certas doenças e pacientes recorriam à Justiça para que a agência permitisse o acesso a ela, a Anvisa passou a autorizar a importação de produtos com canabidiol e que laboratórios aprofundem estudos sobre o tema.
Desde então, mais de 78 mil unidades de produtos à base da planta – óleos, cápsulas e outros – foram importados. Cada paciente precisa pedir a liberação para uso próprio à Anvisa. Hoje, mais de 4,6 mil pessoas têm autorização.
Atualmente, há no Brasil um medicamento à base de cannabis registrado, o Mevatyl, composto por CBD e tetra-hidrocanabinol (THC), o princípio psicoativo da maconha, e indicado para espasmos musculares em quem tem esclerose múltipla. Ele é fabricado por uma empresa do Reino Unido.
Mas o plantio da cannabis continua proibido no Brasil, mesmo para estes fins. A agência começou a estudar uma mudança há cinco anos e elaborou dois conjuntos de regras que estão desde junho sob consulta pública, que termina na próxima segunda-feira, 19 de agosto.
As normas em discussão preveem que somente pessoas jurídicas receberiam autorização para o plantio e também estabelecem restrições e exigências para cultivar, manipular, transportar, armazenar e distribuir a produção, com controles de segurança em cada etapa do processo.
A venda e a entrega das plantas poderiam ser feitas apenas para institutos de pesquisa e fabricantes de insumos farmacêuticos e medicamentos. Tudo seria supervisionado pela Polícia Federal, e o cidadão comum não poderia ter pés de maconha em casa.
Em 31 de julho, foi feita uma audiência pública sobre o tema. Dib afirma que também está sendo realizada uma pesquisa para saber a posição de órgãos governamentais e não governamentais sobre o assunto.
O presidente da Anvisa diz a “maioria esmagadora” das contribuições até agora foi de apoio à medida. “A sociedade aceitou o diagnóstico que está carente de acesso a produtos medicinais a base de cannabis. Também há uma adesão forte porque elaboramos uma proposta consistente, com aprendizados de países como Canadá, Portugal, Israel e Estados Unidos, e que atende às necessidades da academia, do mercado e da população”, afirma Dib.
Uma vez encerrada a consulta pública, em 19 de agosto, todas as sugestões e modificações no texto serão consolidadas em um texto final, que será votado pelos diretores da agência. Se aprovada, a regulamentação do cultivo controlado de cannabis para uso medicinal e científico entrará em vigor imediatamente.
O natural é que isso ocorra, porque a diretoria da Anvisa “está comprometida” com a regulamentação do plantio da cannabis, segundo fontes ligadas à agência, como indica a aprovação unânime por sua diretoria das regras elaboradas pela área técnica para que fossem levadas à consulta pública.
Uma rejeição após cumprir todo este processo é, de acordo com essas fontes, algo que “nunca aconteceu” na história recente da agência, que é ligada ao Ministério da Saúde e responsável por regular e fiscalizar empresas, produtos e serviços de saúde no país. A Anvisa tem autonomia para tomar essa decisão, mesmo diante da contrariedade do governo.
No entanto, a Casa Civil disse por meio de sua assessoria de imprensa que “está totalmente descartada qualquer hipótese de cultivo no Brasil”. “O governo defende a importação de insumos para a fabricação de medicamentos”, disse a pasta em nota.
Por sua vez, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM), afirmou à Folha de S. Paulo não ver problemas na proposta da Anvisa “se for com base científica para uso científico”.
Bolsonaro indicará próximos diretores da Anvisa
Bolsonaro disse que a Anvisa tem “superpoderes” e que ele “não tem poder de interferir” na agência, à qual caberia a decisão sobre o plantio da maconha para pesquisas e medicamentos. Mas a realidade é um pouco diferente.
As regras anteriores determinavam que os diretores da agência têm um mandato de três anos, prorrogáveis por mais três. A nova lei de agências altera isso para um mandato único de cinco anos.
Bolsonaro já nomeou um dos seus membros, o contra-almirante Antonio Barra, que é médico, para o posto que estava vago na diretoria da agência. “Tenho a condição de colocá-lo imediatamente como presidente da Anvisa”, disse o presidente no início de agosto.
Barra dará na deliberação final da Anvisa sobre o tema um dos cinco votos sobre o tema. A decisão será tomada por maioria simples.
Os mandatos de outros três diretores atuais acabam em dezembro. Um deles está em seu segundo mandato e não poderia ser reconduzido ao posto. Bolsonaro indicará seu substituto.
Outros dois estão no primeiro mandato e, teoricamente, poderiam permanecer – este é o caso de seu atual presidente -, mas, caso não tenham a chancela presidencial, serão trocados.
A quarta vaga se abrirá em março do próximo ano, quando o segundo mandato do atual ocupante do cargo se encerra. Assim, Bolsonaro poderá formar uma diretoria da agência totalmente indicada por ele.
‘A Anvisa precisa enfrentar a questão’
Até lá, caso os diretores atuais aprovem as regras sobre maconha medicinal, Terra já disse que isso pode ser questionado na Justiça e ameaçou fechar a agência. “A Anvisa está enfrentando o governo. Não tem sentido”, disse.
O ministro voltou a tratar do tema, em entrevista à Folha de S. Paulo, quando suavizou a ameaça – “não tenho poder de acabar com nada” -, mas não amenizou a pressão e disse que o governo vai discutir com a agência para ela “acabar com essa proposta”.
“A Anvisa tem que se preocupar em produzir e analisar medicamentos que fazem bem à saúde da população e não que piorem. O que a Anvisa está fazendo é o primeiro passo para legalizar a maconha no Brasil”, disse o ministro.
Também questionou a competência da agência para tratar da questão. “Essa é uma ação regulada pelo Congresso, e em alguns poucos lugares pelo Judiciário. Nunca uma agência se dispôs a liberar a produção de maconha. É a primeira vez no mundo isso que a Anvisa está tentando fazer”, afirma.
O presidente da Anvisa diz que a fala do ministro “não tem cabimento”. “Como hoje pacientes conseguem importar produtos à base de cannabis se nenhuma agência do mundo permite? Da forma que falam, parece que é uma jabuticaba brasileira, mas o que estamos fazendo já existe em vários países.”
Ele afirma ainda que a Anvisa age amparada pela lei 11.343/06, que prevê que a União pode autorizar o cultivo de plantas “para fins medicinais e científicos, em local e prazo predeterminados, mediante fiscalização”, e pelo decreto 5.912/06, que atribui a competência ao Ministério da Saúde, ao qual a agência é vinculada.
“Estamos cumprindo o papel que o Congresso nos delegou. A Anvisa precisa sair da mesmice e enfrentar a questão”, afirma Dib.
‘Ministro age com motivações ideológicas’, diz presidente da Anvisa
Terra defende como alternativa a produção sintética do CBD para fabricar medicamentos sem THC. “Acharia ótimo”, diz Dib, “e nossa proposta contempla os sintéticos, que terão as mesmas facilidades, mas ainda não existe um produto assim considerado eficaz para todas as patologias.”
Dib afirma ainda que o ministro age baseado em “motivações ideológicas e não científicas”. O Ministério da Cidadania disse à BBC News Brasil que não se manifestaria sobre o assunto.
“Ele [Terra] disse que uma criança teria usado o remédio à base de cannabis e teve alucinação. Isso não tem pé nem cabeça. Em 4 mil anos de literatura sobre isso, não existe registro de efeitos nocivos com uso oral de substâncias obtidas a partir da planta, que é o que propomos”, afirma Dib.
Entretanto, o CFM e a ABP são contra a regulamentação por falta de evidências científicas “de que o uso da cannabis in natura e de seus derivados garantam efetividade e segurança para os pacientes”.
“Até o momento, somente o canabidiol, um dos derivados da Cannabis sativa L., por ter mínimos estudos em forma de pesquisa, tem autorização para uso compassivo sob prescrição médica no tratamento de epilepsias em crianças e adolescentes refratários aos métodos convencionais. Isso está previsto na Resolução CFM nº 2.113/2014, que, por sua vez, proíbe aos médicos a prescrição da Cannabis in natura para uso medicinal, bem como de quaisquer outros derivados que não o canabidiol”, diz a nota das duas entidades.O presidente da Anvisa afirma que o comunicado são “manifestações manipuladas”.
“Não digo nem equivocadas, que é uma palavra bonitinha. O CFM e a ABP fazem parte do conjunto liderado pelo ministro Osmar Terra, que é contra o uso medicinal da cannabis”, afirma. O CFM e a ABP não responderam ao pedido de entrevista da BBC News Brasil até a publicação desta reportagem.Dib aponta que a própria classe médica pediu para usar estes medicamentos, o que levou a agência a ser processada para permitir sua importação, e argumenta que, se o CFM – uma autarquia que fiscaliza e normatiza a prática médica no país – é contra a liberação do uso destes medicamentos, pode proibir médicos de os receitarem.
“Nenhum laboratório vai produzir se a classe médica não prescrever. Se não houvesse pressão dos médicos, não estaríamos regulando.”
‘Desrespeito’ e ‘irresponsabilidade’
O farmacêutico Dirceu Barbano, que fez parte da diretoria da Anvisa por seis anos e foi seu presidente entre 2011 e 2014, diz que a postura do governo é uma forma de exercer pressão sobre a agência e uma “manifestação de desrespeito explícita”.
“Dizer que a Anvisa pode acabar é uma ameaça descabida. É uma tentativa de colocar uma espada no pescoço dos seus funcionários ao falar que se decidirem de tal forma eles podem ficar desempregados na semana seguinte. Isso é muito perigoso. Agências reguladoras não foram criadas para ficar de plantão para atender as necessidades ou vontades políticas de um governo”, afirma.
Barbano considera as declarações do ministro Osmar Terra uma “irresponsabilidade” e diz que há evidências cada vez mais “robustas” de que os produtos feitos a partir da cannabis são seguros e úteis no tratamento de determinadas doenças.
“O ministro é médico e sabe muito bem que existem elementos concretos do uso terapêutico dessa planta. Vamos ficar com medo de cultivar no Brasil por achar que não conseguimos controlar essa produção? Visitei empresas no Canadá que mostram que é possível fazer isso cumprindo requisitos de segurança”, diz ele.
O farmacêutico afirma ainda que, se estudos com medicamentos feitos com canabidiol sintético demonstrarem que eles são tão seguros e eficazes quanto os feitos com insumos naturais, a indústria farmacêutica pode adotar esse método de produção.
Mas defende que, enquanto isso, o cultivo da cannabis para a fabricação a partir da planta não deve ser proibido e cita como exemplo a morfina, um potente medicamento analgésico descoberto no início do século 19 a partir da papoula, a mesma planta que levou à criação de drogas como ópio e heroína.
“Se alguém pensasse desta forma no passado, talvez pacientes com câncer não teriam hoje a morfina. O ministro mistura algo que faz parte da sua história política – ele sempre militou no combate às drogas e assistência a usuários, o que é ótimo -, mas não acho prudente usar o respeito que conquistou nesta área para fazer afirmações que servem aos seus propósitos políticos.”
BBC
Eleições
Wellington tem Senado como porto seguro até 2031; Pivetta joga futuro político em eleição em Mato Grosso

Se perder a disputa pelo Governo, Wellington Fagundes continua com mandato até 2031; já Otaviano Pivetta, empresário com patrimônio superior a R$ 575 milhões, deixaria o Palácio Paiaguás sem outro cargo eletivo garantido
A disputa pelo Governo de Mato Grosso em 2026 coloca frente a frente dois políticos experientes, mas com situações bastante diferentes quando se analisa o que acontecerá com cada um depois das urnas.
De um lado está o senador Wellington Fagundes (PL), que tenta chegar ao Palácio Paiaguás, mas possui uma espécie de segurança política: seu atual mandato no Senado Federal vai até 31 de janeiro de 2031.
Do outro está o atual governador Otaviano Pivetta (Republicanos), que assumiu definitivamente o comando de Mato Grosso em 31 de março deste ano, após a renúncia de Mauro Mendes para disputar o Senado. Pivetta tenta agora conquistar nas urnas um mandato próprio de quatro anos à frente do Executivo estadual.
A eleição, portanto, produz consequências bastante diferentes para os dois principais concorrentes.
Se Wellington perder, ele continua senador
Uma dúvida comum entre os eleitores é o que acontece com Wellington Fagundes caso ele seja derrotado na eleição para governador.
A resposta é objetiva: ele continua senador.
Wellington foi reeleito para o Senado em 2022 para um mandato correspondente ao período de 2023 a 2031. A candidatura ao Governo de Mato Grosso não exige que ele renuncie previamente ao mandato parlamentar.
O próprio Senado Federal, ao analisar os senadores candidatos aos governos estaduais em 2026, colocou Wellington entre os parlamentares cujo mandato termina apenas em 2031 e esclareceu que, caso sejam derrotados nas eleições estaduais, poderão continuar normalmente no Senado.
Na prática, portanto, Wellington não está colocando sua permanência na política institucional em jogo nesta eleição.
Se vencer, troca Brasília pelo Palácio Paiaguás.
Se perder, permanece senador por Mato Grosso por mais de quatro anos, até o início de 2031.
Inclusive, tecnicamente não seria correto dizer que ele “voltaria” ao Senado, porque disputar a eleição para governador não significa necessariamente deixar o mandato. O mais preciso é afirmar que continuará exercendo a cadeira para a qual foi eleito em 2022.
E se Wellington vencer?
A situação muda completamente caso o candidato do PL seja eleito governador.
Wellington possui como primeiro suplente o empresário Mauro Carvalho Júnior, atualmente secretário-chefe da Casa Civil do Governo de Mato Grosso, e como segunda suplente a ex-prefeita de Sinop Rosana Martinelli.
Assim, uma eventual saída de Wellington do Senado para assumir o Governo abriria espaço para a suplência, conforme as regras aplicáveis ao exercício do mandato parlamentar.
Ou seja: politicamente, Wellington disputa o Governo em uma posição relativamente confortável. Uma derrota não encerra seu mandato federal.
Para Pivetta, a eleição tem peso diferente
Otaviano Pivetta vive situação distinta.
Ele era vice-governador e assumiu definitivamente o Palácio Paiaguás após a renúncia de Mauro Mendes, ocorrida no final de março. Desde então, passou a ser governador e busca a reeleição.
Se vencer, permanecerá no comando de Mato Grosso durante o próximo mandato.
Caso seja derrotado, porém, Pivetta termina o atual ciclo governamental sem outro mandato eletivo automaticamente assegurado.
Isso significa que, do ponto de vista institucional, a eleição de outubro representa para ele uma aposta política maior do que para Wellington.
Mas isso não significa necessariamente afastamento da vida pública ou dificuldades profissionais.
Ao contrário.
Pivetta construiu trajetória empresarial muito antes da política
Otaviano Pivetta possui uma longa ligação com o agronegócio e com o empreendedorismo de Mato Grosso.
Nascido no Rio Grande do Sul, chegou ao Estado ainda na década de 1980 e construiu sua trajetória especialmente na região de Lucas do Rio Verde, Nova Mutum e Médio-Norte, participando da expansão agrícola que transformou essa parte de Mato Grosso em um dos maiores polos produtores do país.
Documentos históricos de Nova Mutum registram que, em 1994, Otaviano e o irmão Adriano Pivetta adquiriram a Fazenda Ribeiro do Céu, então com cerca de 7,7 mil hectares, na região de Nova Mutum. Posteriormente, os negócios foram ampliados com novas áreas, inclusive em território que passaria a integrar Santa Rita do Trivelato.
Antes mesmo de consolidar sua carreira política, Pivetta já aparecia ligado a atividades empresariais, produção rural, cooperativismo e organizações relacionadas ao agronegócio.
Documento da Assembleia Legislativa registra sua atuação como empresário e produtor rural e sua participação na criação ou direção de entidades do setor produtivo, cooperativas e empresas.
Patrimônio declarado supera R$ 575 milhões
Essa trajetória empresarial também aparece na declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral em 2026.
Segundo dados do DivulgaCand reproduzidos pela imprensa estadual, Otaviano Pivetta declarou patrimônio de aproximadamente R$ 575,68 milhões, o maior entre os candidatos ao Governo de Mato Grosso neste ano.
Entre os bens declarados aparecem investimentos financeiros, participações empresariais e outros ativos.
Em comparação, Wellington Fagundes declarou aproximadamente R$ 13,1 milhões em patrimônio nesta eleição.
O tamanho do patrimônio de Pivetta reforça uma característica que acompanha toda a sua trajetória pública: diferentemente de políticos cuja atividade profissional está concentrada exclusivamente no exercício de mandatos, ele possui uma história empresarial consolidada fora da política.
Se perder, Pivetta pode retornar ao setor privado
Não há, até o momento, anúncio público de Pivetta dizendo que abandonará definitivamente a política caso seja derrotado.
Portanto, seria precipitado afirmar qual decisão pessoal ele tomará.
Entretanto, uma eventual derrota não deixaria o atual governador sem atividade profissional. Sua ligação histórica com o agronegócio, empresas e investimentos oferece uma estrutura privada consolidada à qual ele pode retornar ou continuar vinculado depois do mandato.
Sua trajetória mostra justamente uma alternância entre administração empresarial e atividade política.
Pivetta já foi prefeito de Lucas do Rio Verde por três mandatos, deputado estadual, vice-governador por duas vezes e atualmente governador, além de manter uma longa história como produtor rural e empresário.
Nesse aspecto, a eventual derrota teria impacto essencialmente sobre seu projeto político imediato, não sobre sua capacidade de retornar ao setor produtivo.
Mas Pivetta pode vencer?
Pode — e os números disponíveis mostram que a disputa está aberta.
A pesquisa Quaest divulgada em 25 de agosto colocou Wellington Fagundes com 27% das intenções de voto e Otaviano Pivetta com 23%.
Considerando a margem de erro de três pontos percentuais, os dois estão em empate técnico.
Natasha Slhessarenko aparece com 8%, enquanto os demais candidatos ficam em patamares inferiores.
Portanto, com menos de um mês até o primeiro turno, não existe base estatística para afirmar que Wellington ou Pivetta tenha a eleição garantida.
Segundo turno ainda mostra vantagem de Wellington
A mesma Quaest testou um confronto direto entre os dois.
Nesse cenário, Wellington aparece com 38% e Pivetta com 29%. Entretanto, outros 22% se declararam indecisos, um contingente suficientemente grande para impedir qualquer conclusão definitiva sobre o resultado.
Outro dado importante é que 47% dos entrevistados afirmaram que ainda poderiam mudar o voto até a eleição.
Esse percentual demonstra que a campanha continua extremamente aberta.
Pivetta enfrenta maior desconhecimento, mas também espaço para crescer
Um dado da pesquisa ajuda a explicar a estratégia adotada pela campanha governista.
Segundo a Quaest, 46% dos entrevistados ainda disseram não conhecer Otaviano Pivetta suficientemente. Entre os que o conhecem, 30% afirmaram que poderiam votar nele, enquanto 24% disseram que não votariam.
Wellington, por ser senador há mais de uma década e ex-deputado federal por vários mandatos, possui grau de conhecimento significativamente maior.
Entretanto, isso também produz um efeito inverso: o senador aparece com 32% de rejeição, enquanto Pivetta registrou índice inferior.
Para Pivetta, portanto, o desconhecimento é simultaneamente problema e oportunidade.
Quanto maior a exposição na televisão, rádio, debates e campanha de rua, maior a possibilidade de converter eleitores que ainda dizem não conhecê-lo — mas também existe o risco natural de aumento da rejeição conforme sua imagem se torne mais conhecida.
Apoios de prefeitos do próprio PL fortalecem Pivetta
Um dos elementos políticos mais relevantes das últimas semanas é o movimento de prefeitos filiados ao PL em direção à candidatura de Pivetta.
Mesmo com Wellington sendo o candidato oficial da legenda, gestores como Cláudio Ferreira, de Rondonópolis; Flávia Moretti, de Várzea Grande; e Sérgio Mahnic, de Sorriso, declararam apoio ao governador do Republicanos.
O movimento provocou reação da direção estadual do PL, que iniciou procedimentos internos para avaliar as condutas dos filiados.
Levantamento divulgado no final de agosto apontava ainda pelo menos 11 prefeitos de partidos que oficialmente apoiam outros projetos eleitorais declarando voto em Pivetta, incluindo gestores do MDB, PSB, PL e PRD.
Esse é um dos principais ativos políticos da campanha do governador.
Prefeitos possuem capacidade de mobilização regional e influência especialmente em municípios do interior, onde relações administrativas e investimentos estaduais podem ter peso importante na formação das alianças.
Racha no PL é problema para Wellington
A divisão dentro do próprio PL tornou-se, ao mesmo tempo, uma das maiores dificuldades da candidatura de Wellington.
O senador possui a estrutura partidária e é o candidato oficial da legenda, mas enfrenta resistência de parte de lideranças municipais importantes.
Wellington, contudo, adotou uma postura diferente da direção partidária e declarou ser contrário à expulsão dos prefeitos que decidiram apoiar Pivetta, defendendo que cada liderança tenha liberdade para fazer sua escolha.
Essa divisão cria uma situação incomum: Wellington disputa o Governo pelo PL enquanto parte de prefeitos do próprio partido trabalha eleitoralmente para seu adversário.
Campanha também entrou no campo judicial
A disputa não se limita aos palanques.
A coligação de Wellington chegou a tentar suspender o registro da candidatura de Pivetta e impedir o uso de recursos do Fundo Eleitoral, alegando problemas relacionados a contas referentes a um antigo convênio da época em que Pivetta era prefeito de Lucas do Rio Verde.
A Justiça Eleitoral rejeitou o pedido liminar para impedir o uso desses recursos.
A campanha também já teve debates marcados por acusações mútuas sobre administrações anteriores e trajetórias políticas, indicando que a tendência é de aumento da temperatura eleitoral até 4 de outubro.
Dois candidatos, riscos políticos muito diferentes
A eleição para governador de Mato Grosso apresenta, portanto, uma característica peculiar.
Para Wellington Fagundes, a derrota representaria a frustração de mais uma tentativa de chegar ao Palácio Paiaguás — ele também disputou o Governo em 2018 —, mas não interromperia sua carreira institucional.
O senador tem mandato assegurado até 2031 e permaneceria como uma das principais lideranças federais de Mato Grosso.
Para Otaviano Pivetta, uma derrota encerraria seu atual período no comando do Executivo e o deixaria, a partir de 2027, sem mandato eletivo.
Por outro lado, Pivetta possui uma condição incomum entre políticos profissionais: construiu antes e paralelamente à política uma expressiva carreira empresarial no agronegócio, com patrimônio declarado superior a meio bilhão de reais.
Dessa forma, caso deixe o governo, poderá naturalmente voltar sua atenção aos negócios privados — embora somente ele possa definir se escolherá esse caminho ou se continuará articulando novos projetos políticos.
Eleição está longe de estar decidida
A pouco menos de um mês do primeiro turno, talvez esse seja o dado mais importante.
Wellington Fagundes lidera numericamente as pesquisas disponíveis, mas Otaviano Pivetta está tecnicamente empatado com ele no primeiro turno.
Pivetta possui a vantagem da máquina administrativa, do cargo de governador e de uma crescente rede de prefeitos e lideranças municipais.
Wellington possui maior conhecimento eleitoral, estrutura partidária, longa experiência política e mantém vantagem numérica na pesquisa Quaest e no cenário de segundo turno.
Ao mesmo tempo, quase metade do eleitorado ainda admite mudar de voto.
Por isso, falar neste momento em vencedor antecipado seria ignorar o principal retrato das pesquisas: a eleição para o Governo de Mato Grosso permanece competitiva e pode ser decidida justamente pelo eleitor que ainda não definiu seu voto.
O resultado de outubro decidirá mais do que quem comandará o Palácio Paiaguás pelos próximos quatro anos.
Também definirá rumos pessoais bastante diferentes: Wellington, mesmo derrotado, continuará com uma cadeira no Senado; Pivetta, se perder, deixará o governo, mas terá à disposição uma trajetória empresarial construída ao longo de décadas no coração do agronegócio mato-grossense.
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