Saúde
Crianças enfrentam espera ainda mais difícil por transplantes; desafio também atinge famílias de Mato Grosso
Brasil realizou 586 transplantes pediátricos em 2025, mas 50 crianças morreram antes de receber um órgão; em Mato Grosso, limitações na oferta de transplantes obrigam parte dos pacientes a buscar tratamento fora do Estado
Enquanto milhares de brasileiros aguardam por um transplante, a situação das crianças expõe uma das faces mais delicadas do Sistema Nacional de Transplantes. Para os pacientes pediátricos, não basta existir um órgão disponível: é necessário que ele seja compatível não apenas do ponto de vista sanguíneo e imunológico, mas muitas vezes também em relação ao tamanho do receptor.
Em 2025, o Brasil realizou 586 transplantes pediátricos de órgãos sólidos, número superior aos 555 registrados em 2024. Apesar do avanço, 50 crianças morreram enquanto aguardavam um órgão, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). O próprio relatório considera que os números permanecem abaixo da capacidade necessária para atender plenamente à demanda.
O drama nacional também alcança famílias de Mato Grosso. Embora o Estado tenha ampliado a estrutura de captação de órgãos e retomado transplantes renais, nem todas as modalidades de transplante estão disponíveis dentro do território mato-grossense. Nesses casos, pacientes com indicação são encaminhados por meio do Tratamento Fora do Domicílio (TFD) para centros transplantadores de outros estados.
Isso significa que, para algumas crianças, a espera por um órgão pode vir acompanhada de outro desafio: permanecer longe de casa e da rede familiar enquanto aguarda avaliação, inclusão na lista e eventual transplante.
Para uma criança, encontrar um órgão pode ser ainda mais difícil
O sistema brasileiro de transplantes leva em consideração critérios técnicos como compatibilidade sanguínea, gravidade, urgência e características do doador e receptor.
A legislação nacional estabelece inclusive que órgãos provenientes de doadores com até 18 anos devem ser ofertados prioritariamente a candidatos também com até 18 anos, respeitados os demais critérios de alocação.
Mesmo com essa prioridade, a disponibilidade é limitada.
No caso de uma criança pequena, determinados órgãos precisam apresentar dimensões adequadas ao corpo do receptor. Isso reduz o universo de potenciais doadores e transforma cada nova doação pediátrica em uma oportunidade especialmente importante.
Em 2025, o Brasil registrou queda no número de doadores pediátricos em comparação com anos anteriores, cenário apontado pela ABTO como um dos fatores que ainda limitam a evolução dos transplantes nessa faixa etária.
Para uma família, cada dia de espera significa conviver com a possibilidade de agravamento da doença antes que apareça um órgão compatível.
Mato Grosso ampliou captações
Apesar das limitações na realização de determinados tipos de transplantes, Mato Grosso vem ampliando sua capacidade de identificar doadores e realizar captações.
Em 2025, foram realizadas 17 captações de múltiplos órgãos no Estado, superando as 13 registradas em 2024. Em uma das últimas operações daquele ano, realizada no Hospital Regional de Sinop, foram retirados dois rins e um fígado para beneficiar três pacientes.
Até novembro de 2025, as primeiras 15 captações daquele ano já haviam resultado em 33 órgãos sólidos: 22 rins, dez fígados e um coração, além de centenas de córneas captadas.
A estrutura também alcança o interior. Atualmente, dezenas de hospitais de Mato Grosso estão habilitados para participar do processo de captação, incluindo unidades em cidades como Cuiabá, Várzea Grande, Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde e Nova Mutum.
Em maio deste ano, por exemplo, o Hospital Regional Hilda Strenger Ribeiro, em Nova Mutum, foi palco da sexta captação de múltiplos órgãos de 2026 no Estado. Foram retirados dois rins e duas córneas, com potencial de beneficiar quatro pacientes.
Cada operação como essa depende de uma complexa mobilização entre médicos, equipes hospitalares, Central Estadual de Transplantes, logística e o Sistema Nacional de Transplantes.
Mas, acima de tudo, depende de uma decisão familiar.
Recusa das famílias ainda é um dos maiores obstáculos
No Brasil, a retirada de órgãos de uma pessoa falecida depende da autorização da família.
Por isso, não basta uma pessoa afirmar em vida que deseja ser doadora. Na prática, os familiares precisam confirmar essa decisão no momento da morte.
A Central Estadual de Transplantes de Mato Grosso reforça justamente a necessidade de conversar sobre o assunto antes que uma família seja colocada diante dessa escolha em meio ao luto.
Especialistas da SES-MT alertam que muitos parentes desconhecem a vontade do familiar falecido. Por essa razão, comunicar claramente o desejo de doar pode tornar a decisão mais segura quando o momento chegar.
Em nível nacional, a recusa familiar permanece próxima de metade das entrevistas realizadas em alguns levantamentos, tornando-se um dos principais obstáculos para que potenciais doadores sejam efetivamente convertidos em doações.
No caso pediátrico, cada negativa pode ter impacto ainda maior, já que o número de órgãos de tamanho adequado para crianças é naturalmente mais restrito.
Quando o transplante não existe em Mato Grosso
Mato Grosso consegue realizar transplantes de córnea e retomou a realização de transplantes renais pelo SUS. Entretanto, procedimentos de outras modalidades ainda podem exigir encaminhamento para centros especializados fora do Estado.
A própria Secretaria Estadual de Saúde informa que, quando o transplante necessário não é realizado em Mato Grosso, o paciente pode ser encaminhado pelo Tratamento Fora do Domicílio, após avaliação médica especializada.
Para adultos essa mudança já representa dificuldades. Para crianças, pode significar reorganizar praticamente toda a vida familiar.
Pais precisam eventualmente se afastar do trabalho, irmãos podem permanecer em outra cidade e a família precisa lidar simultaneamente com deslocamentos, tratamento médico e a incerteza sobre quando um órgão ficará disponível.
Uma espera que não obedece apenas à ordem de chegada
A chamada “fila de transplantes” também é diferente de uma fila convencional.
A posição de um paciente não depende exclusivamente de quem foi inscrito primeiro.
O Sistema Nacional de Transplantes considera critérios como compatibilidade, gravidade, urgência e características clínicas do receptor e do órgão disponibilizado.
Por isso, quando aparece um órgão, o receptor selecionado é aquele que atende aos critérios técnicos estabelecidos para aquela doação.
No caso das crianças, essa combinação pode ser ainda mais complexa.
Avanços em Mato Grosso, mas desafio permanece
Mato Grosso apresentou avanços recentes importantes no sistema de transplantes.
Além do aumento das captações e da retomada do transplante renal, o Estado conseguiu, em setembro de 2025, zerar momentaneamente a fila de pessoas que aguardavam transplante de córnea. Em janeiro de 2026, a lista havia voltado a registrar 29 pacientes, mostrando como a demanda é contínua.
O Estado também investe em treinamento das equipes hospitalares responsáveis pela identificação de potenciais doadores e pela abordagem das famílias. Em 2025, profissionais de Mato Grosso participaram de capacitações específicas sobre comunicação em situações críticas, justamente porque a entrevista familiar é uma das etapas decisivas para a concretização da doação.
Setembro Verde coloca o assunto dentro das famílias
Durante o Setembro Verde, campanha nacional de incentivo à doação de órgãos, autoridades e instituições de saúde reforçam uma mensagem simples: conversar sobre doação antes que seja necessário decidir pode salvar vidas.
Um único doador pode beneficiar várias pessoas, dependendo dos órgãos e tecidos que estejam em condições de serem aproveitados.
No caso de uma criança à espera de transplante, essa decisão representa muito mais do que um procedimento médico.
Pode significar deixar uma UTI, voltar para casa, frequentar a escola, brincar e ter a possibilidade de crescer.
Os números mostram que o Brasil possui um dos maiores sistemas públicos de transplantes do mundo e que o SUS financia a ampla maioria dessas operações.
Mas os dados também revelam que ainda existem crianças que não conseguem esperar.
As 50 mortes registradas na fila pediátrica em 2025 representam famílias para as quais o órgão compatível não chegou a tempo.
Em Mato Grosso, aumentar o número de doadores, fortalecer as captações, ampliar gradualmente as modalidades de transplante disponíveis dentro do Estado e garantir suporte às famílias que precisam buscar tratamento em outros centros continuam sendo desafios fundamentais.
Porque, para quem aguarda um transplante — principalmente quando o paciente é uma criança — a fila não representa simplesmente tempo de espera. Representa uma corrida contra o tempo.
Mato Grosso
Fila Zero prevê 588 mil procedimentos em MT, enquanto programa federal adiciona mais 9,6 mil atendimentos em 2026

Estado prevê R$ 400 milhões para 588 mil procedimentos em 2026, enquanto Ministério da Saúde anuncia mais 9,6 mil atendimentos especializados em Cuiabá
Mato Grosso amplia a ofensiva para reduzir uma das principais dificuldades enfrentadas pelos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS): a espera por consultas especializadas, exames e cirurgias eletivas.
De um lado, o Governo de Mato Grosso mantém o Programa Fila Zero na Cirurgia, que entrou em uma nova etapa em 2026 e prevê investimento de R$ 400 milhões para a realização de até 588 mil procedimentos eletivos. Do outro, o Governo Federal passou a reforçar a rede por meio do programa Agora Tem Especialistas, do Ministério da Saúde, que anunciou 9.636 novos procedimentos para pacientes do SUS em Mato Grosso.
As duas estratégias têm modelos diferentes, mas compartilham o mesmo objetivo: aumentar a capacidade de atendimento e reduzir o período em que pacientes permanecem aguardando por diagnóstico ou tratamento.
Fila Zero reduz tempo médio de espera em Mato Grosso
Criado pelo Governo de Mato Grosso para ampliar a oferta de cirurgias, consultas e exames eletivos, o Fila Zero apresentou redução significativa no tempo de espera segundo balanço divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT).
Dados atualizados até 15 de junho de 2026 apontam que o tempo médio de espera por cirurgias eletivas caiu de 77 para 45 dias, uma redução de aproximadamente 41% desde a implantação da estratégia estadual em 2023.
A atual etapa, denominada pelo Governo como Fila Zero 3.0, prevê até 588 mil procedimentos em 2026, com investimento estimado em R$ 400 milhões.
O programa foi estruturado em três frentes.
Do total previsto, R$ 200 milhões são destinados a propostas apresentadas por municípios e consórcios intermunicipais de saúde; outros R$ 100 milhões estão reservados para o credenciamento direto de unidades privadas; e R$ 100 milhões serão utilizados em mutirões realizados pela própria rede estadual.
A estratégia permite que a demanda seja distribuída entre hospitais públicos, municípios, consórcios e prestadores privados, aumentando a capacidade de realização dos procedimentos.
Nova tabela busca atrair hospitais e clínicas
Uma das principais mudanças adotadas pelo Estado em 2026 foi a criação da Tabela SUS Mato Grosso, com valores próprios para remuneração de determinados procedimentos.
A medida procura enfrentar uma dificuldade histórica do SUS: em diversos procedimentos, os valores pagos pela tabela nacional são considerados insuficientes para cobrir integralmente os custos dos prestadores.
Com valores mais atrativos, o Governo estadual pretende ampliar o interesse de hospitais, clínicas e profissionais na prestação de serviços pelo SUS.
A nova tabela também aumentou de 466 para 556 o número de procedimentos contemplados pelo programa. Segundo a SES-MT, após a mudança houve crescimento superior a 300% na produção assistencial registrada pelo Fila Zero.
Entre os procedimentos atendidos pelo programa estão áreas como oftalmologia, ortopedia, ginecologia e urologia, além de consultas e exames complementares.
Governo Federal anuncia mais 9,6 mil procedimentos em Mato Grosso
Paralelamente ao programa estadual, o Ministério da Saúde anunciou uma nova etapa do Agora Tem Especialistas, programa federal criado para reduzir o tempo de espera por atendimento especializado no SUS.
Em Mato Grosso estão previstos 9.636 procedimentos, com investimento informado pelo Ministério da Saúde de R$ 1.572.900 nesta contratação específica.
Todos esses atendimentos serão realizados pela Associação Mato-Grossense de Combate ao Câncer, em Cuiabá, por meio do modelo denominado Ofertas de Cuidados Integrados (OCI).
O Hospital do Câncer de Mato Grosso já havia sido habilitado pelo Ministério da Saúde para participar do programa na modalidade de crédito financeiro. Na ocasião, o Governo Federal informou limite anual superior a R$ 11 milhões para a instituição oferecer consultas, exames e procedimentos aos usuários do SUS.
Hospitais particulares atendendo pacientes do SUS
Uma das características do Agora Tem Especialistas é justamente ampliar a utilização da estrutura privada e filantrópica.
Hospitais que aderem ao programa realizam consultas, exames e cirurgias para pacientes encaminhados pelo SUS e, em determinadas modalidades, recebem créditos financeiros que podem ser utilizados para compensação de tributos federais.
O Ministério da Saúde informa que já foram formalizados R$ 1 bilhão em créditos financeiros, envolvendo 259 instituições de 21 estados e previsão de mais de 600 mil procedimentos.
A lógica é utilizar parte da capacidade instalada existente fora da rede pública para reduzir gargalos do sistema.
Paciente poderá fazer consulta e exames no mesmo fluxo
Outra diferença do programa federal está na chamada Oferta de Cuidados Integrados.
Em vez de o paciente receber autorizações separadas para consulta, exame e retorno médico, determinados tratamentos são organizados em um conjunto de procedimentos relacionados à mesma especialidade.
Dos mais de 600 mil atendimentos anunciados nacionalmente pelo Ministério da Saúde, aproximadamente 458 mil estão previstos nesse modelo integrado. Outros 142 mil são procedimentos cirúrgicos de diferentes complexidades.
Entre as áreas com maior volume previsto estão oftalmologia, cardiologia, ortopedia e oncologia.
A proposta busca reduzir a chamada “peregrinação” do paciente pelo sistema, principalmente quando uma consulta especializada depende posteriormente de vários exames antes da definição do tratamento.
Mato Grosso também recebe novos médicos especialistas
O programa federal não está limitado à contratação de procedimentos.
Em agosto, o Ministério da Saúde informou que Mato Grosso contava com 13 médicos do Projeto Mais Médicos Especialistas em atividade e receberia outros 16 profissionais, destinados principalmente a Cuiabá e Rondonópolis.
Essa frente procura atuar em outro gargalo da saúde pública: a dificuldade de encontrar especialistas em determinadas regiões e especialidades.
Programas são diferentes, mas podem se complementar
Apesar do objetivo semelhante, Fila Zero e Agora Tem Especialistas não são o mesmo programa.
O Fila Zero é uma iniciativa do Governo de Mato Grosso, financiada principalmente com recursos estaduais e executada por meio da SES-MT, municípios, consórcios e instituições conveniadas.
Já o Agora Tem Especialistas é uma política do Governo Federal, coordenada pelo Ministério da Saúde e aplicada nacionalmente, utilizando diferentes mecanismos, incluindo credenciamento, hospitais filantrópicos e privados, unidades móveis, mutirões, telessaúde e créditos financeiros.
Na prática, porém, as duas iniciativas podem atuar simultaneamente sobre a mesma demanda reprimida existente no Estado.
Um paciente pode ser atendido por uma instituição vinculada ao programa estadual, enquanto outro procedimento pode ser financiado ou disponibilizado através da estratégia federal.
Desafio agora é transformar investimentos em atendimentos
Os valores e números anunciados demonstram uma ampliação expressiva de recursos destinados à redução das filas, mas o principal indicador continuará sendo o que acontece na ponta.
O desafio é transformar contratos, credenciamentos e orçamento em consultas realizadas, diagnósticos concluídos e cirurgias efetivamente feitas.
No caso do Fila Zero, a queda de 77 para 45 dias no tempo médio de espera indica avanço, mas também mostra que ainda existe uma fila considerável a ser enfrentada.
Já no programa federal, os 9.636 procedimentos anunciados para Mato Grosso representam um reforço adicional, especialmente na atenção especializada em Cuiabá.
Com a atuação simultânea das duas esferas de governo, Mato Grosso passa a contar com uma estrutura maior para enfrentar a demanda reprimida do SUS. O resultado, entretanto, dependerá da capacidade de regulação das filas, da distribuição regional dos atendimentos, da adesão dos prestadores e, principalmente, da velocidade com que os recursos anunciados chegarão efetivamente ao paciente que aguarda atendimento.
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