Brasil
Brasil e EUA se reúnem para destravar impasse do tarifaço em meio à distensão diplomática
Encontro entre chanceler e secretário de Estado em Washington ocorre após aproximação de Lula e Trump; temas como terras raras e regulamentação de big techs devem compor a pauta.
Com a sensível melhora no ambiente diplomático entre Brasília e Washington, representantes dos governos do Brasil e dos Estados Unidos se reúnem nesta quinta-feira (16) para iniciar tratativas sobre a política tarifária imposta por Donald Trump ao Brasil. A expectativa é transformar o impasse do chamado “tarifaço” em um acordo comercial concreto.
O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, desembarcou na terça-feira (14) na capital norte-americana para o encontro com o secretário de Estado, Marco Rubio. A avaliação do Itamaraty é que o diálogo direto é fundamental para que as negociações abram caminho para a redução das taxas e o restabelecimento do equilíbrio comercial bilateral.
Relação e Pauta
A reunião ocorre após uma recente aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Os líderes tiveram um breve encontro durante a 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, no qual Trump afirmou ter sentido uma “química excelente” ao se cumprimentarem. Posteriormente, no dia 6 de outubro, um telefonema entre eles contribuiu para pacificar as relações.
Na última semana, o líder norte-americano reforçou o aceno ao declarar, durante coletiva no Salão Oval da Casa Branca, que considera Lula um “bom homem”. Em resposta, o presidente brasileiro minimizou a ideia de uma “química” com Trump, mas afirmou que “pintado uma indústria petroquímica”.
Especialistas indicam que, além das tarifas, temas de alta complexidade global devem integrar a pauta, incluindo a exploração de terras raras no Brasil, a regulamentação das big techs e a crise política na Venezuela.
O Tarifaço e Seus Efeitos
Desde agosto, produtos brasileiros exportados para os EUA enfrentam uma taxa adicional de 50%. A medida resultou em uma queda de 18,5% nas exportações brasileiras para o país no primeiro mês da aplicação do tarifaço.
A imposição das sanções por Trump foi agravada pela justificativa de que a situação política envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado recentemente por tentativa de golpe de Estado junto a outros sete aliados, era um dos motivos para a ação. Contudo, o aumento da tarifa teve um “efeito adverso e amargo” para o cotidiano dos próprios consumidores americanos, que registraram alta no preço de itens como o café.
O Brasil, historicamente, registra um déficit comercial com os EUA, que somaram um superávit de US$ 410 bilhões nos últimos 15 anos de relações comerciais. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já indicou que a delegação brasileira apresentará os “melhores argumentos econômicos” em defesa do país.
Obstáculos na Negociação
Apesar do otimismo em torno do novo clima diplomático, a delegação brasileira leva preocupações à mesa de negociação, sobretudo em relação a possíveis imposições dos EUA.
O representante comercial norte-americano, Jamieson Greer, afirmou que parte do tarifaço está associada a “preocupações extremas com o Estado de Direito, a censura e os direitos humanos” no Brasil. Ele citou o que seria uma intervenção judicial:
“[No Brasil], um juiz brasileiro assumiu a responsabilidade de ordenar que empresas americanas se autocensurem, dando-lhes ordens secretas para gerenciar o fluxo de informações sobre o Estado de Direito em relação a oponentes políticos no Brasil”, declarou Greer.
Setores ligados a opositores do atual governo apontam essa crítica sobre o Estado de Direito e a firmeza ideológica do Secretário de Estado, Marco Rubio, como obstáculos concretos à retirada imediata das tarifas.
Brasil
Brasileiro trabalhou 150 dias em 2026 apenas para pagar tributos, aponta estudo do IBPT

Carga tributária efetiva sobre renda, consumo e patrimônio dos brasileiros chegou a 41,1% em 2026, conforme levantamento
Os brasileiros precisaram trabalhar até o dia 30 de maio de 2026 apenas para pagar impostos, taxas e contribuições cobrados pelos governos federal, estaduais e municipais. É o que revela um levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). Pelo estudo, a carga tributária efetiva sobre a renda, o consumo e o patrimônio da população neste ano está em 41,10%.
Na prática, o percentual representa 150 dias do calendário dedicados exclusivamente ao pagamento de tributos. O resultado mantém o Brasil em um dos mais altos patamares de carga tributária das últimas décadas, conforme os dados do IBPT.
Os dados mostram que a tributação sobre os brasileiros cresceu de forma gradual desde o início dos anos 2000. Em 2003, a carga tributária efetiva era de 36,98%. Em 2007, passou para 40,01% e, desde então, permaneceu próxima ou acima da faixa dos 40%, atingindo 40,80% em 2021, 2022 e 2025.
Em nota, o Instituto destaca que o presidente-executivo do IBPT e um dos autores do estudo, João Eloi Olenike, avalia que o cenário é preocupante já que a elevada arrecadação não tem sido acompanhada pela percepção de melhorias nos serviços públicos.
“Apesar da alta arrecadação, a população ainda não percebe um retorno proporcional em serviços públicos de qualidade”, salienta Olenike.
O estudo mostra, ainda, que a quantidade de dias trabalhados para pagar tributos praticamente dobrou nas últimas décadas. Em 1986, eram necessários 82 dias de trabalho para quitar a carga tributária. Em 1988, o número caiu para 73 dias, em contrapartida voltou a crescer e alcançou 130 dias em 2001. Segundo os dados, nos últimos 20 anos, os dias de trabalho para custear impostos permaneceram entre 140 e 150 dias.
Segundo o IBPT, hoje o brasileiro trabalha quase o dobro do que trabalhava na década de 1970 para cumprir suas obrigações tributárias.
Para chegar aos resultados por meio da análise comparativa, o estudo foi utilizado, para fins tributários, a faixa mensal de rendimento de até R$ 3.000,00 (classe baixa), de R$ 3.000,00 a R$ 10.000,00 (classe média) e acima de R$ 10.000,00 (classe alta).
Aumentos de impostos influenciaram resultado
A base de cálculo do levantamento abarca o período entre maio de 2025 e abril de 2026. O estudo inclui tributos federais, estaduais e municipais, como IRPF, INSS, ICMS, IPI, ISS, IPVA, IPTU, taxas diversas e contribuições.
Entre os fatores que contribuíram para a manutenção da elevada carga tributária, o Instituto destaca mudanças como aumentos das alíquotas do ICMS em estados como Maranhão, Rio Grande do Norte e Piauí, além da ampliação da cobrança do ICMS sobre importações realizadas por meio do Programa Remessa Conforme, da Receita Federal.
O estudo também cita os efeitos da chamada “taxa das blusinhas”, que manteve a cobrança de 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50.
Outro destaque entre os principais aumentos de tributação no período do estudo foi o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que impactou as operações de crédito empresarial, câmbio, previdência privada e seguros.
Também pesaram no cálculo a ampliação da tributação sobre apostas esportivas e jogos online, o aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) para fintechs e instituições financeiras, a elevação da alíquota do Imposto de Renda sobre Juros sobre Capital Próprio (JCP) e o aumento do Imposto de Importação para alguns produtos de tecnologia.
IBPT
Fundado em 1992, o IBPT é uma entidade especializada em estudos sobre o sistema tributário brasileiro e atua na produção de pesquisas relacionadas à arrecadação e transparência fiscal.





