Justiça
Promotor admite que chamou advogada de ‘feia’ durante júri e diz que ela só queria causar tumulto para evitar que clientes fossem condenados
Após a discussão, uma das juradas se levantou e, por isso, a sessão foi anulada. Ministério Público de Goiás disse que “os fatos serão apurados pelos órgãos disciplinares competentes”.
O promotor e justiça Douglas Chegury admitiu ter chamado a advogada Marília Gabriela Gil Brambilla de “feia” durante uma sessão do Tribunal do Júri na Comarca de Alto Paraíso de Goiás, no Entorno do Distrito Federal. Mas, disse que agiu em um momento de “alta adrenalina”, e que a advogada estava tumultuando a sessão para anular o julgamento e evitar que os clientes dela fossem condenados.
“Ela foi percebendo que o resultado do julgamento não era o desejado. Certamente os clientes iam ser condenados. Ela sentou próximo de onde eu estava e fez o gesto com a boca de quem tá mandando beijo. (…) Naquele momento da provocação e o clima dentro do plenário de júri era de adrenalina no topo. Então, realmente, chamei ela de feia”, justificou o promotor.
A sessão aconteceu na última sexta-feira (22). Após a discussão, uma das juradas se levantou e, por isso, a sessão foi anulada. Para o promotor, a resposta dele era tudo que a advogada queria pois, imediatamente depois disso, ela passou a pedir pela anulação do júri.
“Ela foi contratada pelos outro advogados faltando uns quatro dias para o júri e o objetivo dela era um só: tumultuar o processo. Esse julgamento começou às 8 horas e foi até quase 17h e o único trecho que foi gravado foi este. É muito curioso que só esse trechozinho tenha sido gravado. Para mim, fica muito claro que o objetivo realmente era esse”, reforça.
Em entrevista, a advogada negou ter gravado o julgamento com qualquer intenção premeditada. Segundo ela, essa é uma prática comum. Argumentou também que a discussão que estava acontecendo era técnica e que o promotor a ofendeu com algo que não tinha nada a ver com o processo.
“Eu fiquei realmente perplexa com o que houve, porque a questão que estava sendo discutida era técnica, não cabia naquele momento o que foi dito, da forma com que foi dito”, lamentou.
Marília também disse que nunca aconteceu nada parecido com ela em 22 anos de carreira. “Fiquei preocupada porque aconteceram coisas surreais durante o plenário de um tribunal do júri. Eu fui ofendida de uma forma que fui até surpreendida pela ofensa […] eu tenho 22 anos de carreira, isso nunca tinha acontecido”, disse a advogada.
O Ministério Público de Goiás disse que “os fatos serão apurados pelos órgãos disciplinares competentes”.
Em um áudio, é possível ouvir que Chegury falou para a advogada que não a beijaria, porque ela é “feia”. No áudio é possível perceber que os ânimos se exaltaram após a fala do promotor.
A advogada pediu a anulação imediata do júri e chegou a pedir a prisão dele. Chegury argumentou que também foi ofendido durante a sessão e alguém retrucou alegando que foram argumentos técnicos.
Neste momento, Chegury disse que também ofenderia tecnicamente e disse que a advogada não era esteticamente bonita. Antes disso, ele também retrucou a advogada que gritou que havia sido chamada de feia. O promotor perguntou: “Eu menti?”.
OAB-GO repudiou falas do promotor
Em nota, a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO) repudiou as declarações do promotor, considerando-as como misóginas. Diz que a conduta do promotor violou a ética profissional e irá “agir de modo a assegurar uma investigação criminal e administrativa adequada em relação ao ocorrido e a fomentar um ambiente jurídico de respeito e igualdade”. Leia a nota completa:
“A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO), por meio de suas Comissões de Direitos e Prerrogativas e da Mulher Advogada, repudia as declarações misóginas do Promotor de Justiça, Douglas Roberto Ribeiro de Magalhães Chegury, contra a advogada Marília Gabriela Gil Brambilla, ocorridas na Comarca de Alto Paraíso, no Edifício do Fórum, na sala do Tribunal do Júri, nesta sexta-feira, 22 de março.
Esta conduta viola a ética profissional e é inaceitável. Demonstramos solidariedade à advogada afetada e reafirmamos nosso compromisso com a defesa da dignidade e dos direitos de toda a advocacia, neste caso, especialmente da mulher advogada.
A OAB-GO irá agir de modo a assegurar uma investigação criminal e administrativa adequada em relação ao ocorrido e a fomentar um ambiente jurídico de respeito e igualdade.
Reiteramos o empenho da Seccional Goiana em erradicar a discriminação e promover a igualdade de gênero na seara jurídica e na sociedade”.
Justiça
Julgamento sobre “cura gay” sai do virtual e vai ao plenário do STF

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, decidiu transferir para o plenário físico o julgamento que discute a legalidade de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que proíbe práticas conhecidas como “cura gay” e restringe o uso de fundamentos religiosos na atuação profissional de psicólogos.
A análise, que estava ocorrendo no ambiente virtual, será retomada presencialmente após o pedido de destaque feito por Fachin. O caso envolve duas ações diretas de inconstitucionalidade que tratam de pontos opostos sobre a norma editada em 2023.
De um lado, o partido Novo e o Instituto Brasileiro de Direito e Religião questionam a regra, alegando que ela fere a liberdade de crença e de expressão dos profissionais. Do outro, o PDT defende a validade da resolução, argumentando que a medida não impede manifestações religiosas, mas estabelece limites claros para evitar que convicções pessoais interfiram no atendimento psicológico.
A norma do CFP veda a chamada terapia de conversão sexual e reforça que o exercício da psicologia deve seguir critérios científicos reconhecidos, sem substituição por crenças religiosas. Para os defensores da resolução, a flexibilização poderia abrir espaço para práticas já amplamente criticadas por entidades médicas e científicas.
Antes da suspensão do julgamento, o relator Alexandre de Moraes votou pela validade da norma. Ele entendeu que a resolução não viola a liberdade religiosa, mas garante a proteção dos pacientes e reafirma o caráter laico do Estado, ao impedir tratamentos sem base científica.
Com a ida ao plenário físico, o julgamento ganha novo peso dentro da Corte e deve reunir todos os ministros em uma discussão que envolve direitos fundamentais, liberdade religiosa e limites da atuação profissional na área da saúde. Ainda não há data definida para a retomada do caso.
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