Agro Notícias
Tecnologia garante três safras por ano e produção recorde no campo em MT
Na Fazenda Primavera, filho do produtor Valter Peruzi controla sistema pelo aparelho celular Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O Estadão percorreu mais de 2 mil quilômetros em Mato Grosso, pelo projeto Supersafra — cobertura multimídia que reúne reportagens digitais semanais, cadernos impressos, vídeos, boletins de rádio e conteúdos para redes sociais, destacando a produção em campo, as inovações tecnológicas e os desafios do setor, até o final de outubro.
A safra brasileira de 2025 deve totalizar 340,5 milhões de toneladas, 47,7 milhões a mais do que em 2024, um avanço de 16,3%. A soja deve subir 14,2%, para o recorde de 165,5 milhões de toneladas, e o milho crescer 19,9%, para 137,6 milhões. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também são previstas altas em arroz, feijão, algodão, sorgo e trigo.
Os números recordes refletem os investimentos dos produtores, para o aumento de produtividade, em tecnologia. Na Fazenda Primavera, em Sorriso (MT), o produtor Valter Peruzi controla pelo celular 21 pivôs que irrigam 3,2 mil hectares.
No campo, colhedoras — incluindo uma máquina de R$ 8 milhões — operam com piloto automático, enquanto um avião aplica defensivos. A irrigação permite três safras por ano: soja, milho ou algodão e feijão.
O arroz também entra na rotação, com 5 mil toneladas estocadas. Alguns pivôs, abastecidos por captação e poços, chegam a 820 metros e cobrem área equivalente a 220 campos de futebol. A fazenda já recebeu visitantes de Israel, referência em irrigação.
O Plano Safra 2025/26 destinou R$ 2,75 milhões ao Proirriga, alta de 5,8%. A Lindsay, fornecedora da tecnologia da Fazenda Primavera, estima retorno em 3 anos e 4 meses, mesmo com juros entre 10,5% e 12,5%. Segundo o revendedor Rodrigo Borges, a produtividade cresce 30% com irrigação.
Tecnologias sustentáveis
Com mudanças no clima, tecnologias sustentáveis são inevitáveis, diz Cornélio Zolin, da Embrapa Agrossilvipastoril. “O produtor já percebeu que precisa investir na proteção e recuperação do solo.”
Em Santa Carmem (MT), o produtor Invaldo Weiss adota há 12 anos o sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Soja e milho são plantados no pasto com braquiária, entre fileiras de eucalipto. “O sombreamento deu mais conforto às matrizes (vacas de cria) e a adubação melhorou a pastagem.”
Na safra deste ano, Weiss colheu 160 sacas de milho e 78 de soja por hectare, recorde sem irrigação. Também fez a primeira colheita de eucalipto: uma fileira rendeu 450 m³ de madeira. Fora do sistema com floresta, usa mix de seis capins indicados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que retêm umidade, nutrem o solo e alimentam o gado.
Já na Fazenda Esperança, a produção de bezerros é programada com a biotecnologia Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), que sincroniza a ovulação das vacas para inseminação simultânea, aumentando a eficiência reprodutiva. Os bois terminam a engorda em confinamento, alimentados também com resíduos de cereais do secador.
Aproveitamento total
Com Integração Lavoura-Pecuária (ILP), a Fazenda Renascer, em Diamantino (MT), alia tecnologia e sustentabilidade para
produzir sem desmatar. Metade dos 7 mil hectares é mata nativa e, com áreas arrendadas, as lavouras de soja e milho somam 12 mil hectares. “Trabalhamos com três moedas: soja, milho e carne. Agora investimos na quarta: o gergelim”, diz o produtor Gilson Antunes de Melo. A cultura ocupa 5 mil hectares e quase toda a produção vai para exportação à Ásia.
Os investimentos incluem sete colheitadeiras de alta tecnologia, armazéns, silos e secadores operados por sensores. O destaque é o sistema ILP: mesmo após 60 dias sem chuva, a braquiária está verde e alimenta 3 mil cabeças de gado. A palhada preserva a umidade, enquanto saliva e esterco do gado enriquecem o solo (Estadão, 27/8/25)
Por José Maria Tomazela
Agro Notícias
União Europeia oficializa veto à carne brasileira a partir de setembro

A União Europeia (EU) oficializou sua decisão de proibir a importação de carnes, tripas, peixe e mel produzidos no Brasil. O veto deve entrar em vigor a partir do próximo dia 3 de setembro.
Anunciada há quase um mês, poucos dias após a entrada em vigor provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, a decisão de excluir o Brasil da lista de países autorizados a exportar esses produtos para os países do bloco europeu foi confirmada em um documento oficial publicado no Diário Oficial da UE nesta sexta-feira (5).
Segundo a Comissão Europeia, o Brasil não conseguiu comprovar que seus produtores atendem às algumas das exigências sanitárias europeias, especialmente que não utilizam, ao longo de toda a cadeia produtiva, medicamentos antimicrobianos para tratar e prevenir infecções em animais.
Em abril deste ano, o governo brasileiro proibiu parte dos antimicrobianos comprovadamente usados para estimular o crescimento e aumentar a produtividade animal, mas a União Europeia avaliou que ainda faltam garantias adicionais.
As regras sobre o uso de antimicrobianos fazem parte da política europeia de segurança alimentar e saúde pública conhecida como One Health, criada para combater o uso excessivo de antibióticos no mundo. Entre os produtos restritos pelos europeus estão substâncias como virginiamicina, avoparcina, tilosina, espiramicina, avilamicina e bacitracina.
A União Europeia é um dos principais mercados para as proteínas animais brasileiras. No caso da carne bovina, o bloco europeu aparece entre os maiores destinos das exportações brasileiras em valor.
A cautela europeia não significa necessariamente que a carne brasileira esteja contaminada por medicamentos. O principal ponto da decisão europeia é regulatório e envolve rastreabilidade sanitária, certificação e comprovação documental sobre o uso dos medicamentos.
Para voltar à lista dos países autorizados a vender os produtos vetados, o Brasil precisará comprovar que cumpre integralmente as regras europeias durante todo o ciclo de vida dos animais exportados. Para isso, o país pode ampliar ainda mais as restrições legais aos medicamentos ou criar mecanismos mais rígidos de rastreabilidade para provar que os produtos exportados não utilizam as substâncias proibidas na Europa.
A segunda alternativa é considerada mais complexa porque exige monitoramento detalhado da cadeia produtiva, certificações sanitárias adicionais e custos maiores para produtores e frigoríficos.
Abiec
Consultada pela reportagem, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) manteve o posicionamento divulgado no mês passado, quando a Comissão Europeia anunciou a decisão de proibir a compra dos produtos brasileiros.
Segundo a entidade, o Brasil conta com um “dos sistemas de inspeção e defesa agropecuária mais robustos do mundo” e a carne bovina brasileira atende aos requisitos sanitários e regulatórios de mais de 170 países, incluindo os principais mercados internacionais, cumprindo “rígidos controles oficiais, sistemas de rastreabilidade e protocolos reconhecidos globalmente”.
Ainda de acordo com a associação, o setor privado vem trabalhando em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) na elaboração de protocolos voltados ao atendimento das novas exigências europeias, além de manter diálogo técnico e colaboração com as autoridades competentes sobre o tema.
Qualidade
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) informou que está acompanhando a formalização da decisão da União Europeia e confiante de que as autoridades brasileiras vão demonstrar, tecnicamente, que o país possui um dos mais robustos sistemas de controle sanitário mundial, capaz de garantir “elevados padrões de qualidade, rastreabilidade, biosseguridade e segurança dos alimentos”.
Em nota, a ABPA enfatizou que o veto à importação dos produtos brasileiros “não decorre de qualquer questionamento sanitário, não conformidade ou problema identificado em relação ao uso de antimicrobianos na produção animal brasileira”, mas sim ao reconhecimento europeu dos “mecanismos oficiais de fiscalização e controle adotados pelo Brasil”.
A entidade também reconheceu a legitimidade das iniciativas voltadas à proteção da saúde pública, da sanidade animal e da segurança dos alimentos, mas com ressalvas. Para a associação, é necessário que as normas sanitárias nacionais estejam “fundamentadas em critérios científicos, avaliações de risco reconhecidas internacionalmente, transparência regulatória e observância aos princípios estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde Animal, pelo Codex Alimentarius e pelos acordos multilaterais de comércio”.
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