Agro Notícias
Profert prevê R$ 10 bilhões para reduzir dependência externa de fertilizantes no Brasil

Apesar de ocupar uma posição de liderança na produção e na exportação mundial de alimentos, o Brasil ainda depende fortemente do mercado internacional para abastecer as lavouras com fertilizantes. Mais de 80% dos produtos utilizados pela agricultura nacional são importados, situação que deixa o setor vulnerável às variações cambiais, aos preços da energia, aos conflitos geopolíticos e aos problemas logísticos globais.
Uma tentativa de mudar gradualmente esse cenário é o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), aprovado pelo Congresso Nacional e encaminhado para sanção presidencial. A proposta estabelece incentivos para a construção de fábricas e para a ampliação ou modernização das unidades industriais existentes.
O Profert poderá conceder até R$ 10 bilhões em créditos fiscais de tributos federais durante cinco anos. Os incentivos estão previstos para o período entre 2027 e 2031, com limite anual de R$ 2 bilhões.
Importação de fertilizantes movimentou US$ 15,5 bilhões
As compras brasileiras de fertilizantes no exterior alcançaram US$ 15,5 bilhões em 2025, segundo dados do Banco Central. O país respondeu por aproximadamente 8% do consumo mundial desses insumos, o que evidencia tanto a dimensão do mercado brasileiro quanto sua exposição aos grandes fornecedores internacionais.
O modelo produtivo nacional apresenta uma aparente contradição: o Brasil exporta grandes volumes de soja, milho, açúcar, algodão e outras commodities, mas precisa importar parte expressiva dos nutrientes usados para viabilizar essas mesmas safras.
Navios chegam aos portos brasileiros carregados de fertilizantes e matérias-primas. Após o ciclo produtivo, uma parcela dos grãos e demais produtos obtidos com esses insumos retorna aos terminais portuários com destino ao mercado internacional.
Por essa razão, qualquer elevação nos preços dos fertilizantes pode avançar por toda a cadeia, pressionando o custo de produção, reduzindo a rentabilidade dos agricultores e afetando a competitividade das exportações brasileiras.
Profert poderá incentivar novas fábricas de fertilizantes
A proposta aprovada pelo Senado, após tramitar pela Câmara dos Deputados, permite a participação de empresas produtoras de fertilizantes sintéticos e minerais, assim como de fabricantes das matérias-primas utilizadas pela indústria.
O programa também contempla projetos relacionados a bioinsumos, biofertilizantes e remineralizadores. Além dos créditos fiscais, o texto prevê instrumentos de financiamento de longo prazo e mecanismos associados à produção efetivamente realizada.
A seleção das iniciativas beneficiadas ficará sob responsabilidade do Poder Executivo, mediante procedimento concorrencial. Recursos que não forem utilizados em determinado exercício poderão ser transferidos para o ano seguinte, dentro do período de vigência do programa.
Na avaliação de Anna Dolores Sá Malta, presidente da Associação Brasileira de Direito Aduaneiro e Fomento ao Comércio Exterior, o fortalecimento da indústria nacional pode diminuir a vulnerabilidade do agronegócio. A efetividade da política, entretanto, dependerá da transformação dos incentivos em investimentos, produção competitiva e capacidade instalada.
Guerras e crises logísticas expõem vulnerabilidade do Brasil
A elevada dependência ficou mais evidente diante da guerra entre Rússia e Ucrânia, dos conflitos no Oriente Médio, das oscilações do mercado energético e das dificuldades registradas nas principais rotas internacionais de transporte.
Esses acontecimentos demonstraram como crises ocorridas a milhares de quilômetros das áreas agrícolas brasileiras podem interferir rapidamente nos preços e na disponibilidade dos insumos utilizados no campo.
O problema não se restringe ao volume importado. O fornecimento também está concentrado em poucos mercados, com participação relevante da Rússia, da China e de países do Oriente Médio. Sanções econômicas, restrições comerciais, guerras ou interrupções logísticas nessas regiões podem comprometer o abastecimento brasileiro.
Nos fertilizantes nitrogenados, a ligação com o ambiente geopolítico é ainda mais direta. Cerca de 22% das importações brasileiras desse segmento realizadas em 2025 tiveram origem no Oriente Médio. A região representa aproximadamente 34% do comércio mundial de ureia, produto amplamente utilizado na agricultura.
Gás natural influencia preços dos nitrogenados
O mercado de fertilizantes nitrogenados também está associado ao setor energético, uma vez que o gás natural é uma das principais matérias-primas empregadas na produção.
Uma escalada das tensões em áreas fornecedoras de petróleo e gás pode elevar simultaneamente os custos da energia, do transporte marítimo e dos insumos agrícolas. Esse movimento tende a alcançar o produtor brasileiro por meio de preços maiores e de uma menor previsibilidade para o planejamento da safra.
Para Anna Dolores, o objetivo não deve ser eliminar as importações, que continuarão fundamentais para o abastecimento e para a concorrência, mas diminuir uma concentração considerada excessiva em fornecedores externos.
Quanto maior a dependência de uma cadeia estratégica, maior também será a exposição do país a eventos sobre os quais produtores, empresas e autoridades brasileiras não possuem controle.
Produção nacional enfrentará desafio dos custos
O Profert não deverá tornar o Brasil autossuficiente em fertilizantes no curto prazo. O Plano Nacional de Fertilizantes trabalha com horizonte até 2050 e prevê uma redução gradual da dependência externa, sem estabelecer o fechamento do mercado brasileiro às importações.
A construção de uma fábrica exige investimentos elevados, disponibilidade de matérias-primas, fornecimento competitivo de energia, infraestrutura logística, escala industrial e segurança regulatória. Mesmo após a implantação, a produção brasileira precisará competir com empresas estrangeiras que possuem vantagens no acesso a gás natural, minerais e outros recursos.
Nesse contexto, os benefícios tributários representam apenas uma parte da equação. Para que o programa produza resultados duradouros, será necessário avançar também em logística, infraestrutura, energia, tributação e previsibilidade jurídica.
Caso essas condições não evoluam de maneira coordenada, o Brasil poderá aumentar sua capacidade instalada sem reduzir substancialmente a necessidade de importações.
Fertilizantes pesam nos custos de soja, milho e trigo
O impacto dos fertilizantes sobre a rentabilidade rural varia conforme a cultura, a região e o sistema produtivo, mas pode representar parcela relevante das despesas operacionais.
Estudo publicado pelo Banco do Nordeste aponta o peso desses insumos nos custos de culturas como soja, milho e trigo. Dessa forma, uma política voltada à produção doméstica também pode ser entendida como estratégia para fortalecer o comércio exterior brasileiro.
Uma oferta nacional maior e mais diversificada tende a proporcionar segurança ao abastecimento e previsibilidade ao agricultor. Esses fatores podem ajudar a proteger as margens no campo e preservar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.
O resultado, no entanto, dependerá do preço pelo qual o fertilizante nacional chegará ao produtor.
Mistura de fertilizantes nacionais começará em 2%
O texto do Profert prevê um mecanismo para estimular a entrada da produção doméstica no mercado. Caberá ao Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Confert) determinar um percentual mínimo de fertilizantes nacionais nos produtos comercializados e distribuídos no país.
A participação obrigatória começará em 2% e deverá aumentar gradualmente até alcançar 10% em 2031. O conselho também será responsável pelo acompanhamento do programa e pela publicação de avaliações anuais sobre os resultados obtidos.
A medida poderá assegurar demanda às novas unidades industriais, mas também exigirá atenção aos seus efeitos sobre os custos agrícolas. Se o fertilizante produzido no país for significativamente mais caro, o ganho em segurança de abastecimento poderá vir acompanhado de pressão sobre os produtores.
Por outro lado, se os investimentos gerarem escala, tecnologia e eficiência, o programa poderá modificar uma relação de dependência construída ao longo de décadas.
Sucesso do Profert dependerá de fábricas e produção efetiva
A avaliação do Profert não deverá se limitar ao volume de créditos fiscais concedidos ou ao número de projetos habilitados. Entre os principais indicadores estarão a quantidade de fábricas efetivamente implantadas, o crescimento da capacidade produtiva e os tipos de fertilizantes fabricados no Brasil.
Também será necessário verificar quanto das importações poderá ser substituído pela produção doméstica sem elevar excessivamente os custos do agronegócio.
Com incentivos de até R$ 10 bilhões, o Profert abre uma oportunidade para fortalecer uma indústria considerada estratégica. A capacidade do programa de transformar benefícios fiscais em fertilizantes competitivos, porém, será determinante para reduzir vulnerabilidades e aumentar a segurança produtiva do agronegócio brasileiro.
Agro Notícias
Diamantino: SLC Agrícola amplia estrutura logística e eleva capacidade para 80 mil big bags na safra 2026/27

Empresa passará de quatro para seis centros de distribuição e reforça presença em Mato Grosso, Goiás, Bahia e Maranhão; estratégia acompanha expansão do negócio de sementes
A SLC Agrícola vai ampliar sua estrutura logística para a safra 2026/27, com expansão da rede de centros de distribuição e aumento da capacidade de movimentação de sementes. A estratégia faz parte do processo de crescimento da companhia no mercado de sementes e busca aproximar estoques, atendimento e suporte técnico das principais regiões produtoras do país.
A rede de centros de distribuição passará de quatro para seis unidades. Os novos pontos estão localizados em Balsas, no Maranhão, e Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, e funcionarão em parceria com prestadores de serviços.
Com a ampliação, a estrutura logística da empresa estará distribuída por quatro importantes estados agrícolas brasileiros. Além de Balsas e Lucas do Rio Verde, a SLC contará com centros em Diamantino (MT), Luís Eduardo Magalhães e São Desidério (BA), além de Luziânia (GO).
A localização das unidades evidencia a estratégia de concentração nos principais polos de produção de grãos e fibras do Centro-Oeste e do Matopiba, região formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e que se consolidou como uma das principais fronteiras agrícolas brasileiras.
Embora o valor financeiro do investimento não tenha sido divulgado, a SLC informou que a nova configuração permitirá elevar a capacidade de movimentação de 64 mil para 80 mil big bags durante a safra 2026/27.
O aumento corresponde a aproximadamente 25% na capacidade logística da operação.
Expansão acompanha crescimento das sementes
O fortalecimento da distribuição ocorre em um momento de expansão do negócio de sementes da companhia. Em informações financeiras divulgadas neste ano, a SLC projetou para 2026 a comercialização, consumo interno e operações entre empresas do grupo de aproximadamente 72 mil big bags de sementes de soja, volume 28,6% superior ao registrado no ano anterior.
No segmento de sementes de algodão, a previsão apresentada pela companhia é de aproximadamente 6,28 mil big bags, alta de 8,3% na comparação anual.
Os números ajudam a explicar a necessidade de ampliar a capacidade logística e descentralizar a distribuição, especialmente em estados de grande produção agrícola como Mato Grosso, Bahia, Goiás e Maranhão.
A própria SLC Sementes informa atuar com dezenas de cultivares e soluções voltadas principalmente às culturas de soja e algodão, buscando ampliar a presença junto aos produtores rurais.
Mato Grosso ganha reforço na operação
Em Mato Grosso, a nova estrutura fortalece especialmente o eixo formado por Diamantino e Lucas do Rio Verde, municípios inseridos entre as principais regiões produtoras do Estado.
A presença em Lucas do Rio Verde amplia a proximidade da empresa com produtores do médio-norte mato-grossense, região marcada por forte produção de soja e milho e pela expansão da agroindustrialização.
Diamantino, por sua vez, já fazia parte da estrutura de distribuição da companhia e também possui relação direta com as operações agrícolas da SLC. A empresa mantém unidades produtivas em diferentes municípios mato-grossenses, incluindo propriedades em regiões como Diamantino, Nova Mutum, Santa Rita do Trivelato, Sapezal, Querência, Porto dos Gaúchos e Tabaporã, conforme informações institucionais divulgadas pela companhia.
Logística passa a ter papel estratégico
Mais do que simplesmente ampliar depósitos, a estratégia da companhia envolve integração entre diferentes etapas da cadeia.
Segundo a SLC, os novos centros deverão ajudar a conectar produção, beneficiamento, armazenagem, distribuição e suporte técnico aos produtores, reduzindo distâncias entre a produção das sementes e os clientes finais.
A companhia já vem investindo também em tecnologia para gerenciamento do transporte. Em 2025, a SLC apresentou o Centro de Inteligência Logística (CILog), sistema desenvolvido para integrar dados operacionais e melhorar o acompanhamento das movimentações da empresa.
A plataforma reúne ferramentas de planejamento e monitoramento de cargas de sementes e algodão, agendamento de veículos e uma torre de controle logística, permitindo maior acompanhamento das operações.
A combinação de centros de distribuição mais próximos das regiões produtoras com ferramentas digitais de controle tende a aumentar a previsibilidade das entregas e reduzir gargalos durante os períodos de maior movimentação das safras.
Companhia prepara crescimento para 2026/27
A ampliação logística ocorre dentro de um movimento mais amplo da SLC Agrícola para a safra 2026/27.
Durante o Farm Day 2026, realizado pela companhia em junho, executivos apresentaram aos investidores estratégias específicas para a próxima temporada, incluindo perspectivas de produção, expansão do negócio de sementes, agricultura digital, irrigação e rastreabilidade de commodities.
A companhia também anunciou planos para aumentar sua área irrigada. A previsão para 2026/27 inclui a incorporação de aproximadamente 6,7 mil hectares irrigados, além de um planejamento de expansão para mais de 58 mil hectares nos próximos anos.
No negócio de algodão, a empresa inaugurou em julho uma nova algodoeira na Fazenda Parnaguá, no Piauí, com capacidade de processamento de até 80 fardos por hora, outro indicativo do reforço de infraestrutura realizado pela companhia antes do novo ciclo agrícola.
Com os investimentos, a SLC busca ampliar não apenas sua capacidade produtiva, mas também a estrutura necessária para fazer com que sementes e produtos agrícolas cheguem com maior eficiência aos principais polos produtores do país.
A empresa não informou o montante destinado especificamente à abertura dos dois novos centros de distribuição.
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