Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Saúde

Vendedor cria barreira ecológica para retirar lixo e salvar rio em que aprendeu a nadar na infância

Mas o vendedor acompanhou, nas últimas décadas, o início do período que considera o mais triste para o Atuba. “As águas ficaram cada vez mais sujas e não havia mais peixes. O rio era limpo quando eu era criança, mas depois começou a ficar muito poluído”, diz à BBC News Brasil.

O Atuba passa por Curitiba, Colombo e Pinhais – também na região metropolitana da capital paranaense. Quando as águas dele se encontram com as do rio Iraí, formam o Iguaçu, que leva às cataratas, no extremo oeste do Paraná.

Para tentar limpar o trecho que passa perto de sua residência – ele mora ao lado da casa dos pais, onde cresceu -, o vendedor pesquisou sobre como poderia melhorar a situação do rio.

Em janeiro de 2017, ele reuniu garrafas pet de dois litros em uma rede e esticou a barreira flutuante de uma margem do rio à outra. A partir de então, surgiu a “ecobarreira”, como o vendedor define o objeto que segura o lixo carregado pela correnteza.

A primeira tentativa trouxe poucos resultados, mas mostrou que a iniciativa, caso melhorada, ajudaria na retirada do lixo das águas. Dias depois de criar o primeiro formato da barreira, ele aprimorou o projeto. “Comprei galões de 50 litros, usei uma rede de proteção mais forte e refiz a barreira”, conta. O vendedor afirma ter gastado cerca de R$ 1 mil, de recursos próprios.

Desde o início da ecobarreira, ele estima ter retirado quase três toneladas de resíduos das águas do rio. Cerca de 90% dos itens recolhidos, segundo o vendedor, são garrafas ou isopor. Há ainda diversos brinquedos, como bonecas ou bolas. Nos últimos anos, também recolheu objetos como televisores antigos, capacetes de motocicleta, fogão e até um sofá.

Essa lista de objetos recolhidos dá uma ideia do descaso com os rios do país, tratados por muitos, literalmente, como lixo.

O professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e doutor em Ecologia Antonio Fernando Monteiro comenta que a situação dos rios no Brasil é preocupante, em virtude da poluição que atinge a imensa maioria deles. Para o especialista, a barreira criada por Diego é uma importante forma de conscientizar a população.

“Quando um rio está sujo, fedido e com água cinza, as pessoas o enxergam como lugar de lançamento de resíduos e vão jogando tudo o que não querem mais. A limpeza que ele faz no Atuba, com a ecobarreira, mostra a importância de preservar o rio”, comenta.

A ecobarreira

Do lado esquerdo da margem, no qual está localizada a casa de Diego, a barreira flutuante está fixada a uma estaca de ferro. Na parte direita, está amarrada a uma árvore. Ela é ligada entre os dois lados em forma diagonal, para que os resíduos acumulem somente na parte esquerda, para facilitar a retirada dos itens acumulados.

Em dias comuns, o trecho do rio tem cerca de um metro de profundidade. Quando o nível da água sobe, a estaca se solta em direção à margem direita. “É uma forma de segurança, porque quando o rio fica cheio, começam a descer troncos e objetos maiores. Quando o nível da água abaixa, uso uma corda para puxar a estaca da barreira de volta para a margem esquerda.”

O vendedor pensou em cada detalhe da barreira durante anos, enquanto via a poluição das águas. “Quando cheguei à ideia do primeiro formato da ecobarreira, logo procurei os materiais para colocar em prática”, explica.

A princípio, a esposa de Diego, a microempreendedora Tábata de Oliveira, estranhou a iniciativa do marido. “Ele chegou em casa com vários galões e disse que iria fazer algumas coisas para ajudar o rio. Eu pensei que ele estava ficando doido”, diz, aos risos. Hoje, ela colabora com o marido. “Quando comecei a ver que é uma ideia que realmente ajuda o rio, passei a incentivá-lo. Tento ajudá-lo reciclando alguns itens que ele recolhe”, conta.

Leia Também:  CONFIRA O BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO DIAMANTINO (17/08/2021)

Para retirar o lixo, Diego usa uma rede de capturar peixes e uma vestimenta específica, que inclui uma espécie de macacão de borracha e uma bota – ele ganhou a indumentária em dezembro de 2017, de uma empresa que o parabenizou pela iniciativa.

Cada item recolhido tem uma destinação específica. Os plásticos recicláveis são levados à escola municipal em que os filhos dele – de 10 e seis anos – estudam. Na unidade de ensino, os itens são pesados e vendidos. “O dinheiro fica com a própria escola, que guarda para melhorias como pintura do parquinho ou compra de livros”, diz.

As bonecas são restauradas pela mãe dele, que posteriormente as doa a crianças. As bolas retiradas em bom estado são dadas a garotos da vizinhança.

Em uma pequena área nas proximidades da ecobarreira, ele construiu uma espécie de museu, onde deixa os objetos que considera como os mais curiosos entre os que retirou das águas. Ali estão itens como o fogão, televisores e capacetes.

A repercussão da iniciativa

Nas primeiras semanas da criação da ecobarreira, no início de 2017, Diego gravou um vídeo mostrando a iniciativa e o lixo recolhido. O registro viralizou nas redes sociais – até o momento são mais de 5 milhões de visualizações – e o projeto ficou conhecido em todo o Brasil.

Desde então, o vendedor passou a ser chamado para dar palestras. Em escolas, Diego fala voluntariamente sobre o assunto. Ele também costuma participar de eventos em empresas – nestes casos, recebe cachê.

O vendedor já foi premiado duas vezes pela ecobarreira. Em outubro passado, levou o Prêmio Lixo Zero, no Rio de Janeiro, no qual ganhou um troféu. Em janeiro deste ano, foi o primeiro colocado no Prêmio Pega a Visão de Empreendedorismo Popular, em Goiás, e ganhou R$ 8 mil.

Ele se diz honrado com os prêmios, mas lamenta o fato de o projeto não receber apoio do poder público de sua região. “Nunca recebi nem um obrigado. É um projeto que poderia ser ampliado pela prefeitura daqui. Poderiam também me ajudar a percorrer as escolas municipais para falar sobre a importância de cuidar dos rios. Mas nunca tive nenhum apoio”, afirma.

A prefeitura de Colombo informou à BBC News Brasil, em nota, que colabora com a ecobarreira por meio de um caminhão que recolhe o lixo retirado por Diego. O vendedor, porém, diz que precisou do serviço poucas vezes. “No máximo, quatro vezes. Liguei lá e pedi para recolherem. É um serviço de retirada de entulhos, disponibilizado a qualquer cidadão. Não foi uma ajuda específica à ecobarreira”, afirma.

Ainda em nota, a Prefeitura de Colombo classifica a iniciativa da ecobarreira como “ótima, na dimensão ambiental e no âmbito social e cultural”. O município não planeja criar outras ecobarreiras na cidade, mas afirma que está desenvolvendo um plano para limpar os rios da região, por meio do desassoreamento.

Apesar de a prefeitura de Colombo não planejar reproduzir a barreira criada pelo morador, a iniciativa foi implantada em outras cidades brasileiras. Segundo o vendedor, ecobarreiras inspiradas na dele foram desenvolvidas em ao menos outras 10 cidades, como Blumenau (SC), Araucária (PR) e Coronel Fabriciano (MG).

Uma das cidades em que a iniciativa do vendedor foi adotada é Itaí (SP). O responsável por reproduzir o projeto foi o secretário de Meio Ambiente do Município, Guilherme de Oliveira. Ele colocou duas ecobarreiras em pontos distintos do rio Ribeirão dos Carrapatos, que nasce em Itapeva (SP) e passa por Itaí.

“Nos inspiramos na iniciativa do Diego e criamos um sistema diferente, com galões de 20 litros, revestidos em telas e passamos um cabo de aço para reforçar e não ter o risco de a barreira romper quando o nível da água subir”, diz o secretário. Segundo Guilherme, foram usados R$ 2 mil para a implantação da iniciativa, por meio de recursos do município.

Leia Também:  Prefeito cancela cerimônia de posse devido ao aumento no número de casos de Covid-19 em Cuiabá

O amor pela natureza

Diego estudou até o nono ano do ensino fundamental e desistiu da escola para trabalhar. Ele vende frutas na região central de Curitiba. Mesmo longe das salas de aula, sempre leu sobre assuntos relacionados à natureza.

O dinheiro que fatura vendendo frutas é a principal renda da família de Diego. Ele ressalta que os gastos com a manutenção da ecobarreira são mínimos e não comprometem sua renda. Porém, por ser autônomo, ele costuma perder dias de serviço quando participa de atividades voluntárias, como palestras em escolas.

“Mas nenhuma dificuldade me afeta, porque é muito gratificante saber que estou ajudando o rio. Sempre me sinto útil quando recolho o lixo das águas, pois sei que estou fazendo algo positivo para a sociedade”, relata o vendedor.

Segundo o doutor em ecologia Antonio Fernando, a ecobarreira não despolui o rio, apesar de limpar a superfície. “Não é colocando essas barreiras que vamos resolver o problema, apesar de ser uma boa iniciativa. O esgoto e o material lançado nos rios, que não são visíveis, não são retirados por essa medida. Então, o rio permanece poluído”, explica.

A despoluição dos rios, conforme Antonio, ocorre somente quando há saneamento básico adequado. “É preciso haver, principalmente, cuidado com o esgoto, para que não seja jogado sem tratamento. É fundamental que exista uma estação de tratamento, para que a água saia com aspecto limpo. Mas isso, infelizmente, não é adotado em muitos locais”, pontua.

“Com o crescimento da população, o volume do esgoto aumentou e, sem tratamento adequado, a poluição nos rios aumenta. É uma questão de saúde pública, que precisa de mais cuidado”, acrescenta.

Os problemas trazidos pelo esgoto também preocupam Diego. Ele conta que no bairro em que mora não há tratamento adequado. Em razão disso, aderiu, em sua casa, a uma iniciativa chamada ecofossa, inspirada em um professor que havia criado medida parecida para ajudar uma comunidade ribeirinha do Amazonas.

A ecofossa consiste em um túnel de pneus, que, ligados por tubos, levam os resíduos do vaso sanitário da casa para o quintal, em um buraco quadrado de alvenaria – coberto por pedras, areia, seis bananeiras e duas taiobas. “As bactérias comem os dejetos e os transformam em líquido, que escapam pelos vãos dos pneus. Esses líquidos, já livre de contaminação são sugados pelas árvores e plantas, que precisam de água para sobreviver. Assim, nada precisa ir para a rede de esgoto e, consequentemente, não vai para o rio”, diz.

Para o vendedor, a ecobarreira e a ecofossa são pequenas medidas que, apesar de não despoluir o rio, podem representar o começo da limpeza das águas.

Ele comenta que, desde que iniciou a ecobarreira, a população de sua cidade ficou mais consciente sobre a importância de preservar o rio. “Hoje jogam muito menos lixo que antes. No início, eu tinha que retirar os resíduos que se acumulavam na barreira todos os dias. Agora, como jogam menos, retiro o lixo a cada três dias”, comenta. O próximo objetivo de Diego é convencer os vizinhos a adotarem a ecofossa em suas casas.

Um dos maiores orgulhos de Diego é ter se tornado um exemplo para os filhos sobre os cuidados com a natureza. “Espero que eles sejam pessoas mais conscientes sobre a importância do rio no futuro, apesar de não terem tido a oportunidade de nadar naquelas águas.”

BBC

COMENTE ABAIXO:
Propaganda
Clique para comentar

Você precisa estar logado para postar um comentário Login

Deixe uma resposta

Saúde

Doar sangue e salvar vidas: um gesto simples que transforma o mundo

Doar sangue para salvar vidas. Poucos gestos são tão simples e, ao mesmo tempo, tão poderosos quanto esse.

Em menos de uma hora, uma única doação pode beneficiar até quatro pessoas. Não é preciso ser herói nem ter habilidade especial. Basta ter saúde, disposição e sensibilidade para ajudar o próximo.

O sangue não possui substituto artificial. Nenhuma fábrica o produz. Nenhum laboratório consegue reproduzi-lo. Ele existe apenas em cada um de nós e só chega a quem precisa por meio da solidariedade humana. Cada doação é a demonstração concreta de que uma vida importa.

Pense na criança que necessita de transfusão durante uma cirurgia. Na mulher que enfrenta complicações após o parto. Na vítima de acidente que chega ao Pronto-Socorro em estado grave. No paciente em tratamento contra o câncer. Para cada um deles, uma bolsa de sangue pode representar a diferença entre a vida e a morte. Essa é a realidade diária dos hospitais brasileiros, inclusive aqui em Mato Grosso.

Neste 14 de junho, o mundo celebra o Dia Mundial do Doador de Sangue. Em 2026, a campanha da Organização Mundial da Saúde, no âmbito do ‘Junho Vermelho’, traz o tema “Doe sangue, dê esperança: juntos salvamos vidas”. Uma convocação que precisa ir além das datas e se tornar uma atitude permanente.

Leia Também:  Quase 200 mortes por Covid são registradas em fevereiro e UTIs de 5 hospitais estão lotadas em MT

Tenho levado esse compromisso a sério na prática. Por meio dos mutirões sociais do Gabinete da Assembleia Legislativa, levamos campanhas de doação de sangue diretamente às comunidades de Cuiabá, chegando a quem muitas vezes não consegue se deslocar até os pontos de coleta. A própria ALMT firmou parceria com o MT Hemocentro para receber o caminhão de coleta em frente ao plenário, mobilizando servidores e a população. O Parlamento tem o dever de dar o exemplo.

A doação é uma das mais nobres expressões de solidariedade. Quem doa não conhece a pessoa beneficiada. Não há recompensa financeira nem interesse pessoal. Há apenas a decisão de estender a mão a alguém em extrema necessidade.

O sangue coletado é separado em hemácias, plasma e plaquetas, atendendo pacientes com necessidades distintas. Uma única doação tem potencial para ajudar várias pessoas.

Os hemocentros dependem de doações regulares. O sangue possui prazo de validade limitado, e a reposição constante é uma necessidade. Ser um doador regular é assumir um compromisso com a vida, com a comunidade e com quem você ama.

Leia Também:  Mais Médicos: mais de 1,4 mil vagas ainda não foram preenchidas

Qualquer pessoa saudável, entre 16 e 69 anos, e com mais de 50 quilos pode doar. O procedimento é seguro, rápido e praticamente indolor. O organismo repõe naturalmente o volume doado em pouco tempo.

Você dedica alguns minutos do seu dia. Em troca, oferece a alguém a oportunidade de continuar vivendo.

Convido cada mato-grossense a procurar o hemocentro mais próximo, fazer sua doação e incentivar familiares e amigos. Salvar vidas não depende de grandes recursos. Depende apenas da disposição de compartilhar o que carregamos dentro de nós.

Seja doador de sangue. Sua atitude pode ser a esperança que alguém espera para continuar vivendo.

*Max Russi é deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

polícia

política

Cidades

ESPORTES

Saúde

É Direito

MAIS LIDAS DA SEMANA