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Saúde

O mistério da histeria coletiva que afetou 39 estudantes na Malásia

Os alarmes tocaram.

Estava em minha mesa quase dormindo quando senti alguém batendo muito forte no meu ombro.

Virei-me para ver quem era e a sala ficou escura de repente.

O medo me invadiu. Senti uma dor aguda nas minhas costas e minha cabeça começou a girar. Caí no chão.

Antes de que me desse conta, estava em “outro mundo”. Cenas de pura violência.

A coisa mais assustadora que vi foi um rosto maligno.

Estava me assombrando, não consegui escapar. Abri minha boca e tentei gritar, mas nenhum som saiu.

Desmaiei.

O ataque de Siti desencadeou uma poderosa reação em cadeia que percorreu toda a escola. Em poucos minutos, alunos de outras salas de aula começaram a gritar, e seus gritos frenéticos podiam ser ouvidos pelos corredores.

Uma menina desmaiou depois de afirmar ter visto a mesma “figura sombria”.

Sem saber o que acontecia, professores em pânico e estudantes montaram barricadas. De repente, a escola secundária parecia um cenário de guerra. Curandeiros espirituais islâmicos foram chamados para realizar sessões de oração em massa.

Ao fim do dia, 39 pessoas foram consideradas afetadas por um surto de “histeria em massa”.

A histeria em massa, ou doença psicogênica em massa, como também é conhecida, é a rápida disseminação de sintomas físicos, como hiperventilação e espasmos, em um grupo considerável de pessoas – sem causa orgânica plausível.

“Trata-se de uma reação coletiva ao estresse que leva a uma superestimulação do sistema nervoso”, diz o sociólogo médico americano Robert Bartholomew. “Pense nisso como um problema de software.”

As razões por trás da histeria em massa são em geral pouco compreendidas e não estão listadas no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, usado por profissionais da área. Mas psiquiatras como Simon Wessely, do hospital King’s College, em Londres, no Reino Unido, atribuem o fenômeno ao “comportamento coletivo”.

“Os sintomas apresentados são reais – desmaios, palpitações, dores de cabeça, náuseas, tremores e até convulsões”, diz ele. “Muitas vezes o episódio é atribuído a uma condição médica, mas para o qual nenhuma explicação biomédica convencional pode ser encontrada.”

A transmissão, acrescenta, “é em grande parte devido a fatores psicológicos e sociais”.

Surtos assim foram registrados em diversas partes do mundo, com casos que datam da Idade Média. Incidentes na Malásia aconteceram principalmente entre trabalhadores de fábricas durante os anos 1960. Hoje, afetam principalmente crianças em escolas e internatos.

Robert Bartholomew passou décadas pesquisando o fenômeno na Malásia. Ele chama o país de “capital mundial da histeria em massa”.

“É um país profundamente religioso e espiritual, onde muitas pessoas, especialmente as que vivem nos Estados rurais e conservadores, acreditam nos poderes do folclore tradicional e do sobrenatural”, diz.

Mas o assunto continua sendo delicado no país. Na Malásia, meninas adolescentes da maioria étnica muçulmana malaia são, normalmente, o grupo mais afetado.

“Não há como negar que a histeria em massa é um fenômeno majoritariamente feminino”, diz Bartholomew. “É a única constante na literatura (acadêmica)”.

Cercada por campos de arroz verdejantes, a pacata aldeia malaia de Padang Lembek se localiza nos arredores da capital de Kelantan, Kota Bharu.

É uma comunidade pequena e coesa onde todos se conhecem, o tipo de lugar que faz muitos malaios relembrar como o país costumava ser. Há restaurantes comandados por famílias, salões de beleza, uma mesquita e boas escolas de bairro.

Siti e sua família moram em uma modesta casa térrea, facilmente identificável pelo telhado vermelho desgastado e pelo fachada verde. Do lado de fora está estacionada uma velha e robusta motocicleta que ela divide com sua melhor amiga Rusydiah Roslan, que mora nas proximidades.

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“Fomos com ela para a escola na manhã em que estava possuída por ‘espíritos'”, diz Siti.

Como qualquer outro adolescente, ela também é afetada pelo estresse. Siti diz que se sentiu mais pressionada durante seu último ano letivo por causa das provas.

“Estava me preparando há semanas, tentando memorizar minhas anotações, mas algo estava errado”, diz ela. “Parecia que nada estava entrando na minha cabeça.”

O incidente na escola deixou Siti incapaz de dormir ou comer de modo adequado. Foi necessário um mês de descanso para ela pudesse voltar aos eixos.

Um surto de histeria em massa geralmente começa com o que os especialistas chamam de “paciente zero”, a primeira pessoa a ser afetada.

Nesse caso, a paciente zero foi Siti.

“Isso não acontece da noite para o dia”, diz Robert Bartholomew. “Começa com uma criança e depois se espalha rapidamente para as outras por causa de uma exposição a um ambiente onde há muita pressão.”

Assim, basta um grande pico de ansiedade em um grupo, como ver um colega de classe desmaiar ou ter um ataque – para provocar uma reação em cadeia.

Rusydiah Roslan nunca se esquecerá de ver sua melhor amiga naquele estado. “Siti estava gritando incontrolavelmente. Ninguém sabia o que fazer. Estávamos com medo de tocá-la.”

As garotas sempre foram muito próximas, mas os eventos do ano passado fortaleceram seu vínculo. “Isso nos ajuda a falar sobre o que aconteceu. Isso nos ajuda a seguir em frente”, diz Rusydiah.

Do lado de fora, o SMK Ketereh parece com qualquer outro colégio da Malásia. Árvores gigantescas fazem sombra sobre suas instalações e suas paredes têm camadas frescas de tinta amarela cinza e brilhante.

Makcik (tia) Zan possui uma barraca do outro lado da rua onde vende pratos locais de arroz. Há um ano, naquela manhã úmida de julho, ela estava preparando comida, quando ouviu gritos.

“Os gritos eram ensurdecedores”, diz Zan, em meio a pratos de cavala grelhada, curry amarelo e arroz empapado fumegante.

Ela viu pelo menos nove meninas sendo levadas para fora de suas salas de aula, chutando e gritando. Reconheceu algumas delas como suas clientes habituais. “Foi uma visão desoladora”, diz ela.

Mais tarde, Zen observou um feiticeiro entrar em uma pequena sala de oração com seus assistentes. “Ficaram lá por horas”, lembra ela. “Tenho pena das crianças pelo que elas devem ter visto naquele dia.”

A segurança na SMK Ketereh foi reforçada desde o incidente de julho de 2018.

“A fim de evitar que os surtos voltem a crescer, reestruturamos nosso programa de segurança e tivemos uma mudança na equipe”, diz um membro da equipe à BBC, sob anonimato, por não estar autorizado a falar com a imprensa.

Oração diária e sessões de psicologia também foram introduzidas no dia a dia dos alunos, acrescenta ele. “A segurança vem em primeiro lugar, mas também sabemos da importância do cuidado posterior para nossos alunos”.

Não está claro o que essas sessões envolvem ou se foram concebidas por profissionais de saúde mental. O funcionário não deu mais detalhes.

Especialistas como Robert Bartholomew defendem fortemente que os estudantes malaios aprendam sobre o fenômeno, dada a sua prevalência no país.

“Eles devem aprender sobre como a histeria em massa acontece e como ela se espalha”, diz ele. “Também é importante que eles aprendam a lidar com o estresse e a ansiedade”.

Procurado pela BBC News, o Ministério da Educação da Malásia não respondeu aos pedidos de entrevista.

A SMK Ketereh é uma das 68 escolas secundárias em Kelantan. Mas está longe de ser a única a ter testemunhado um surto.

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No início de 2016, a histeria em massa tomou conta de muitas escolas no Estado. “As autoridades não puderam lidar com os vários surtos e fechar todas as escolas”, diz Firdaus Hassan, um repórter local.

Ele e o cinegrafista de TV Chia Chee Lin se lembram de um abril tenso. “Era um período de histeria em massa e os casos estavam acontecendo sem parar, se espalhando de uma escola para outra”, lembra Chia.

Um episódio na cidade vizinha de Pengkalan Chepa atraiu uma atenção considerável da mídia. Alunos e professores foram descritos em relatórios como “possuídos” depois de verem uma “figura escura e sombria” espreitando ao redor do complexo. Cerca de cem pessoas foram afetadas.

Siti Ain, que estudou no SMK Pengkalan Chepa 2, diz que se lembrará da escola como sendo “a mais assombrada de toda a Malásia”.

“O pânico durou horas, mas demorou meses para que a vida voltasse ao normal”, diz ela, agora com 18 anos.

Siti nos mostra um local isolado ao lado de uma quadra de basquete. “Aqui foi onde tudo começou”, diz, apontando para uma fileira de troncos de árvores. “Meus colegas de escola disseram que viram uma mulher idosa de pé entre as árvores”.

“Não pude ver o que eles viram, mas suas reações foram reais.”

O fascínio da Malásia por fantasmas existe há séculos e está profundamente enraizado na tradição xamânica e na mitologia popular do Sudeste Asiático.

As crianças crescem ouvindo histórias sobre bebês mortos chamados toyol – invocados por xamãs usando magia negra – e outros fantasmas vampíricos aterrorizantes como os pontianak e penanggalan, espíritos poderosos e vingativos que se alimentam dos vivos.

Árvores e locais de enterro são cenários comuns para esses contos misteriosos. Esses ambientes fomentam medos que, por sua vez, alimentam essas crenças supersticiosas.

É difícil determinar o que realmente aconteceu naquele dia em Pengkalan Chapa 2, mas as autoridades não perderam tempo em atacar o que acreditavam ser a fonte do problema.

“Vimos de nossas salas de aula quando os trabalhadores chegaram com serras elétricas para cortar as árvores”, diz Siti Ain. “As árvores antigas eram lindas e foi triste vê-las sendo cortadas, mas entendi o porquê.”

Como muitos estudantes aqui, ela encara o que aconteceu naquele dia não como um surto de histeria em massa, mas como um evento sobrenatural.

Mas isso não é um fenômeno restrito às escolas islâmicas em áreas profundamente religiosas.

Azly Rahman, um antropólogo malaio que vive nos Estados Unidos, descreveu um episódio de histeria em massa em 1976, ocorrido em um internato que frequentou na cidade vizinha de Kuantan.

“Foi um pandemônio”, lembra ele. Tudo começou durante uma competição de canto quando uma aluna alegou ter visto “um monge budista sorridente” em cima de um dormitório. “Ela soltou um grito horripilante”, diz.

Exorcistas foram trazidos para realizar sessões em 30 meninas afetadas.

“O papel deles era fazer a mediação entre os vivos e os mortos. Mas é importante para a sociedade de hoje procurar explicações lógicas por trás de tais surtos”, diz Rahman.

Siti Nurannisaa e sua família foram instruídos sobre a histeria coletiva para entender os acontecimentos de um ano atrás.

“Qualquer pai se sentiria mal ao ver um filho sofrer”, diz Azam Yaacob, pai de Siti. Ele diz que a filha nunca teve nenhum “problema psicológico”.

Após o incidente, eles buscaram ajuda de Zaki Ya, um curador espiritual com 20 anos de experiência.

BBC

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