Saúde
‘Não existe apenas um único tipo de dieta saudável’, diz Michael Pollan
O escritor, ativista e guru da gastronomia Michael Pollan continua a explorar a relação entre a identidade humana e a comida em seu novo livro, “How to change your mind” (“Como mudar sua mente”), no qual argumenta que experiências psicodélicas, tal qual o ato de viajar pelo mundo, podem ser algo capaz de alimentar o corpo e a alma.
Em uma entrevista concedida em seu estúdio na Califórnia, nos Estados Unidos, o responsável pela série “Cooked”, do Netflix, e autor de “O dilema do onívoro e em defesa da comida” diz que viagens têm o potencial de derrubar barreiras culturais.
Famoso por mantras como “Coma comida. Não muito. Principalmente plantas”, ele explica como as pessoas podem seguir esse princípio quando viajam, discute como uma viagem é capaz de mudar nossa perspectiva do mundo e fala de algumas das suas refeições mais memoráveis em outros países.
BBC Travel – Você chamou o tribalismo de uma das maiores ameaças que a civilização enfrenta atualmente. O que significa isso?
Michael Pollan – A objetificação e demonização do “outro” – pessoas diferentes de nós por causa de fé, raça, etnia – está na raiz de tantos conflitos hoje em dia. Estamos construindo muros, em vez de nos conectarmos.
BBC Travel – Quais são algumas maneiras pelas quais as viagens podem ajudar a derrubar barreiras culturais?
Michael Pollan – Uma das coisas mais impressionantes sobre o tribalismo, o racismo etc. é que isso prospera onde o contato entre diferentes povos acontece com menos frequência. As pessoas que mais se opõem à imigração nos Estados Unidos são as que vivem em lugares onde há menos imigrantes.
Isso é um argumento a favor de expor diferentes tipos de pessoas umas às outras, e viajar é obviamente uma excelente forma de fazer isso. Então, sim, a viagem tem o potencial de derrubar barreiras culturais. Embora eu tema que as pessoas mais inclinadas a viajar sejam as que mais simpatizam com os “outros”.
BBC Travel – Por que viajar é bom para quebrar preconceitos e mudar mentes?
Michael Pollan – A neurociência mostra que nossos cérebros são máquinas de fazer previsões, que não registramos o mundo por meio de nossos sentidos em si, mas formulamos previsões baseadas na menor quantidade de informação possível. Viajar é como uma experiência psicodélica, porque vai contra essas previsões e nos obriga a obter mais informações – sensoriais ou não.
Começamos do zero em um lugar desconhecido, como uma criança quando deve absorver uma grande quantidade de informações, porque os atalhos da nossa percepção cotidiana – “já fui ali, já fiz isso” – não estão disponíveis. Isso nos abre para a experiência, cria a possibilidade de admirarmos algo ou nos maravilharmos com alguma coisa.
BBC Travel – Em suas viagens, quais foram alguns dos rituais ou crenças mais memoráveis com que você se deparou?
Michael Pollan – Para mim, os rituais e crenças mais memoráveis ocorreram em torno da comida – todas as “práticas estranhas” e os alimentos que as pessoas apreciam e que eu não teria pensado em preparar ou ingerir. Então, tenho como regra experimentar a culinária local onde quer que eu esteja – seja comer formigas no Brasil ou no México ou um tofu fedorento na China.
Às vezes, me deparo com algo com relação a que tinha um preconceito e que acaba se revelando delicioso. Às vezes, não é, e fico maravilhado com as idiossincrasias do comportamento humano ao selecionar alimentos.
BBC Travel – Você disse que é apaixonado por plantas. Você já viajou para experimentar uma flora diferente?
Michael Pollan – Sempre visito jardins e fazendas quando viajo para aprender sobre as plantas locais. Estive recentemente na Colômbia e, é claro, tive que visitar uma fazenda de café, porque essa planta desempenha um papel tão importante na minha vida diária, e eu nunca a havia visto pessoalmente.
Uma das minhas mais memoráveis experiências de viagem neste sentido foi buscar orquídeas na Sardenha e no Panamá. Quando você procura algo específico na paisagem, você realmente olha para as coisas, e isso permite conhecer um lugar de uma forma que não acontece quando se está apenas de passagem.
BBC Travel – Você é conhecido pelo mantra ‘Coma comida. Não muito. Principalmente plantas’. Como as pessoas podem seguir esse princípio quando viajam?
Michael Pollan – A palavra mais controversa que já escrevi é “principalmente”, nessa frase. Isso irrita os vegetarianos, porque pensam que eu não estou apoiando seu ponto de vista, e também quem come carne, porque soa como um insulto aos seus hambúrgueres. Ficamos incomodados com advérbios como esse. Ficamos incomodados com a moderação. Nós realmente queremos uma conclusão sólida: não coma carne ou coma todo tipo de carne, e acho isso errado.
Em geral, tento comer os alimentos locais quando viajo, pela experiência e novidade, e muitas vezes a parte da moderação desaparece. Mas a pergunta a ser feita nesta ocasião é: “O que é comida neste lugar? Qual é a dieta tradicional?”. E então experimente isso. As chances são grandes de que seja uma dieta saudável, porque as dietas tradicionais são saudáveis por definição – elas mantiveram as pessoas vivas por muito tempo.
Quanto às plantas, existe uma variedade limitada de animais de carne, enquanto há uma infinidade de plantas, então, é muito provável que você tenha novas experiências alimentares se explorar as frutas e verduras de um lugar em vez de suas carnes.
BBC Travel – Você escreveu bastante em defesa da comida. Quais são algumas das refeições mais memoráveis que você já fez ao redor do mundo?
Michael Pollan – Normalmente, é a comida comum de lugares exóticos que eu amo: tacos no México, frutas na Colômbia, churrasco na Carolina do Norte, macarrão em Torino. Mas houve refeições sofisticadas que me surpreenderam, como no País Basco, quando comi um bife de uma vaca leiteira de 14 anos de idade. Foi o melhor que já comi.
BBC Travel – A comida é indiscutivelmente parte da cultura de um lugar como a língua ou a religião. O que comer ao redor do mundo ensinou sobre pessoas e lugares diferentes?
Michael Pollan – Isso tem sido uma forma poderosa de me lembrar que humanos são uma das poucas criaturas verdadeiramente onívoras que a evolução produziu. Esta qualidade é precisamente o que nos permitiu prosperar em seis dos sete continentes, criando belas culinárias a partir do que a natureza tem para oferecer em qualquer lugar do planeta. Isso definiu nossa espécie e moldou nosso destino.
Contexto é tudo. Nós tendemos a olhar para a comida como boa ou ruim. Mas você não pode separar o nutriente da comida, porque a comida tem uma estrutura. E você não pode separar a comida da dieta e a dieta da cultura e do estilo de vida. Todas essas coisas estão conectadas. Então, afirmar que uma comida é boa ou ruim é algo difícil de fazer. Mas há exceções: refrigerante é uma delas, porque é basicamente açúcar puro processado.
Não há uma única dieta saudável. Essa é a principal lição de estudar a dieta de forma transcultural. Você vê que as pessoas são saudáveis com uma enorme variedade de alimentos. Nós somos onívoros.
Os seres humanos criaram, por tentativa e erro, um número quase infinito de dietas saudáveis, construídas a partir de qualquer coisa que a natureza ofereça onde quer que vivam. Baseadas no que está disponível, no que funciona e é considerado bom por estas pessoas – não em marketing, moda ou ciência de alimentos. A única exceção é a dieta ocidental moderna, que deixa as pessoas doentes.
BBC Travel – Quais são alguns dos costumes culinários mais memoráveis, tradições ou hábitos que você experimentou e o que você acha que cada um deles diz sobre as pessoas que os praticam?
Michael Pollan – Fiquei impressionado com a universalidade do nojo, enquanto emoção humana, e pela multiplicidade de alimentos que o evocam. Por exemplo, os chineses ficam tão enojados com queijo quanto nós por coisas podres. Na verdade, o queijo é uma espécie de leite podre, mas é claro que não o vemos assim. Mas os chineses deixam o tofu apodrecer até ficar tão fedido que não pode servi-lo dentro de casa – e isso é uma iguaria! O mesmo ocorre com os coreanos com o kimchi.
As culturas costumam celebrar esses alimentos “nojentos” mais do que quase qualquer outro, porque eles as definem. Somos comedores de kimchi ou comedores de tofu fedorentos. O que enoja os outros nos enche de orgulho. Quão estranho é isso?!
BBC Travel – De que outra forma a viagem mudou você?
Michael Pollan – Assim como ao usar uma droga psicodélica, a viagem relativiza a consciência e as experiências comuns e faz com que você aprecie que haja tantas maneiras de viver.
BBC Travel – Qual é um bom motivo para amar o mundo agora?
Michael Pollan – É o único que temos.
Bem Estar
Saúde
MT deve registrar 520 novos casos de câncer colorretal por ano até 2028

O mês de março é tomado pela cor azul-marinho com o objetivo de alertar toda a sociedade para o câncer colorretal (intestino e reto), um dos tumores mais incidentes e uma das maiores taxas de mortalidade do país, que deve registrar 26.270 novos casos da doença por ano no triênio de 2026-2028.
Só em Mato Grosso, são estimados 520 novos casos anuais deste tipo de neoplasia no mesmo período, conforme estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Diante desse cenário, durante o mutirão do “Dia E – Ebserh em Ação”, vinculado ao programa “Agora Tem Especialistas”, do Ministério da Saúde (MS), o Hospital Universitário Júlio Müller, da Universidade Federal de Mato Grosso (HUJM-UFMT), administrado pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), alerta para importância de exames de colonoscopia.
A iniciativa também faz parte do “Março Azul-Marinho”, uma campanha de conscientização sobre a prevenção e o combate ao câncer colorretal. Durante o mutirão, realizado neste dia 21, caso seja identificada alguma doença durante os exames, os pacientes passam a ser acompanhados pelo serviço de coloproctologia.
“Realizamos uma consulta de triagem no dia do mutirão e depois realizaremos consulta dando o feedback sobre o resultado do exame e seguimento”, disse a residente R5 de Coloproctologia, Maristella Nery.
O QUE É – O câncer colorretal é um tumor maligno que se desenvolve no intestino grosso (cólon) e no reto. Atualmente, já figura como o segundo tipo de tumor mais frequente entre homens e mulheres no Brasil, quando excluídos os casos de câncer de pele não melanoma.
Coloproctologista Mardem Machado de Souza, do HUJM-UFMT, alerta que a associação de sangramento nas fezes e alterações no hábito intestinal é o alerta mais comum. No entanto, dores abdominais, perda de peso, anemia e sensação de evacuação incompleta também devem ser investigadas. “Quanto mais cedo se diagnostica, menor o risco de disseminação do tumor e maiores as chances de oferecer um tratamento efetivo e definitivo, com elevadas taxas de cura”, frisou.
O especialista informa ainda que, embora existam métodos como a pesquisa de sangue oculto nas fezes e exames parciais do intestino, a colonoscopia é considerada o exame mais completo para detecção do câncer colorretal. O procedimento permite avaliar todo o intestino grosso, retirar lesões precursoras, biopsiar tumores e até retirar lesões malignas iniciais.
Também a maioria dos cânceres do intestino grosso e reto surge a partir de pólipos adenomatosos, que se assemelham a pequenas verrugas e podem evoluir para câncer após sete a dez anos, caso ocorram alterações genéticas.
As diretrizes internacionais recomendam o início do rastreamento a partir dos 45 anos para pessoas sem fatores de risco. Para quem possui histórico familiar, o exame é indicado a partir dos 40 anos ou dez anos antes da idade em que o familiar de primeiro grau recebeu o diagnóstico.
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