Saúde
Com pânico de HIV e doenças, jovens evitam sexo e ficam obcecados por exames: ‘Faço todo mês’
Fernanda*, de 19 anos, vai com frequência ao ginecologista. Diariamente, ela pensa sobre a possibilidade de ter contraído alguma Infecção Sexualmente Transmissível (IST), mesmo sem vivenciar situações em que pode ter se exposto ao risco. “Somente me acalmo quando faço exames e vejo que deu negativo para todas as ISTs”, diz. Maria*, de 25, ficou preocupada após a camisinha se romper – parou de fazer sexo e, desde então, se submete a testes frequentes.
Juliano, Fernanda e Maria fazem parte de um grupo de pessoas que tem crescido nos últimos anos, de acordo com especialistas consultados pela BBC News Brasil: aquelas que, por motivos diferentes, desenvolveram pânico de pegar alguma doença por meio do sexo e, por isso, se submetem a vários e desnecessários exames mesmo sem ter passado por nenhuma situação que ofereça risco.
A infectologista Helena Duani, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), costuma atender, por semana, de dois a três casos de pessoas que acreditam ter sido infectadas por alguma IST, mesmo sem ter vivenciado uma situação de risco.
“Elas marcam a consulta e chegam com as inúmeras dúvidas, em geral sem nenhuma queixa ou sintoma”, conta.
Segundo o infectologista Alexandre Naime, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu (SP), os casos de pessoas com frequentes pensamentos sobre ISTs, mesmo com exames e médicos confirmando que não há infecção, aumentaram. Para ele, o principal motivo para isso são as informações difundidas na internet.
“As pessoas estão muito mais informadas. Hoje, há algumas situações com as quais elas não se preocupavam antes, por conta das divulgações sobre diversos assuntos nas redes sociais. Por isso, o médico deve informar o paciente e deixá-lo bem tranquilo quando uma possível contaminação por alguma IST for totalmente excluída”, diz.
O preservativo rompeu
A vida sexual da advogada Maria*, de 25 anos, foi interrompida há seis meses, desde que ela começou a pensar com frequência na possibilidade de ter alguma IST. “Não consigo me relacionar com ninguém desde então”, diz.
Tudo mudou quando o preservativo de um parceiro se rompeu durante o sexo.
Ela diz ter questionado o rapaz, com quem saía havia alguns meses, se ele havia feito exames de ISTs recentemente.
“Ele ficou ofendido e disse que não tinha nenhuma doença. Eu orientei que ele fizesse os exames, mas ele se negou. Isso me deixou muito assustada”, conta.
No dia seguinte, a advogada procurou um infectologista, passou a receber acompanhamento e deu início a exames frequentes.
“Comecei a sentir diversos sintomas. Passei a ficar preocupada, ansiosa e não consegui esquecer aquele episódio”, diz.
Por conta própria, fez exames semanais nos quatro primeiros meses.
“Sempre tive parceiros fixos, usei preservativo, mas nunca deixei de fazer exames de ISTs, ao menos uma vez por ano. É uma preocupação que sempre fez parte da minha rotina”, comenta.
“Mas agora se tornou algo preocupante. Coloquei na minha cabeça que me infectei com HIV. Procurei grupos de pessoas que vivem com o vírus e, em muitos momentos, realmente acredito que tenho HIV. Penso que todos os exames que fiz podem estar errados, mesmo tendo sido feitos em laboratório diferentes”, diz
Nos três primeiros meses após o rompimento do preservativo, a advogada recebeu apoio da infectologista que a atendeu. “Ela pedia os exames de todas as ISTs, uma vez por mês”, conta. Ainda assim, Maria frequentemente fazia testes por conta própria. “Fiz diversos testes rápidos de HIV (cujos resultados saem em uma hora), em clínicas particulares, uma vez por semana.”
Logo que passaram os 90 dias após a exposição de risco – período no qual, segundo especialistas, o HIV ou outras ISTs podem se manifestar -, a infectologista disse a Maria que ela não havia contraído nenhuma infecção e deu alta médica para a paciente. O medo, porém, permanece.
“Ainda faço exames particulares com frequência. Todos deram negativo, mas o temor continua.”
A advogada comenta que os pensamentos frequentes sobre possíveis ISTs a têm prejudicado muito.
“Passei a tomar remédios para ansiedade. Além disso, gasto dinheiro fazendo exames”, detalha.
Ela e o rapaz com quem saiu há seis meses não se viram mais. “Na última vez em que conversamos, ele me disse que sou neurótica”, diz.
“Hoje, acredito que nunca mais vou conseguir manter relações sem preservativos. Com o susto que passei, comecei a pesquisar muita coisa e vi que muitas mulheres se infectam com o vírus por meio de maridos e namorados. Isso me fez ficar mais atenta”, declara.
‘É uma paranoia’
Juliano é designer, profissão que não está entre aquelas nas quais há risco de exposição ocupacional ao HIV e outras ISTs – como, por exemplo, profissionais da saúde. Ele afirma que não se expõe a situações nas quais possa contrair alguma infecção sexualmente transmissível.
“Comecei a descobrir a minha sexualidade na adolescência. Me relacionava com outros rapazes. Tive a minha primeira relação sexual aos 16. Sempre usava preservativo e não tinha paranoias sobre infecções sexuais”, relata.
Segundo ele, os temores frequentes sobre ISTs tiveram início aos 24 anos. “Eu tive uma pneumonia muito forte. Fui ao hospital, a médica me perguntou se eu era gay. Quando confirmei, ela respondeu: ‘você está com HIV’. Ela disse isso sem sequer ter feito exames. Eu desmaiei na hora. A minha vida mudou a partir daquele dia”, conta.
Ao receber alta, Juliano fez inúmeros exames que deram negativo para o vírus. “Desenvolvi insônia crônica, até hoje durmo à base de remédios. Havia fases em que eu não saía de casa. Fiquei anos sem me encontrar com ninguém”, relata.
Hoje, mesmo sem qualquer situação de risco, ele faz exames mensais para atestar que não foi infectado. “Tenho informações sobre ISTs, sei como são transmitidas, mas me sinto, muitas vezes, como se tivesse contraído algo. É uma paranoia. Preciso fazer exames para ficar aliviado.”
No Brasil, estima-se que 866 mil pessoas vivem com o HIV, conforme o Ministério da Saúde. Desde os primeiros casos descobertos, nos anos 80, o vírus costuma ser associado a homens gays.
“Por conta do que ela me disse, passei a pensar que estou fadado a ter HIV por ser gay. É como se isso fosse um carma por ser homossexual”, diz Juliano.
Para especialistas, relacionar o HIV unicamente a homens que fazem sexo com outros homens é erro e preconceito – o número de mulheres infectadas têm crescido anualmente, por exemplo.
Hoje é possível que uma pessoa com o HIV tenha qualidade de vida por meio de tratamentos com antirretrovirais que fazem com que o vírus se torne indetectável – quando a presença dele no sangue é extremamente baixa e a chance de transmissão se torna quase nula. Os medicamentos são disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Juliano afirma que sabe disso, mas que tem a sensação de que morrerá em poucos meses caso contraia o vírus. “Já liguei para a minha mãe e para a minha irmã para dizer que eu iria morrer, porque eu estava com HIV, mesmo com exames negativos. É algo fora do normal”, explica.
Durante seis anos, o designer optou por não ter relações sexuais por causa do medo. Ainda assim, ele continuou fazendo testes rápidos – cujos resultados saem em uma hora – todos os meses. “Era uma situação absurda. Qualquer coisa que acontecia comigo, como uma pinta no braço ou dor de garganta, logo pensava que era HIV. Fazia o exame e dava negativo. Mas depois o medo voltava.”
Há dois anos, ele decidiu retomar a vida sexual. “A minha primeira relação, depois desses anos, foi boa. Usamos preservativo. Mas logo que terminamos, os pensamentos sobre ISTs continuaram me preocupando e fui fazer exames dias depois”, diz.
No ano passado, ele deu início à terapia PrEP, sigla para profilaxia pré-exposição. Disponível no SUS desde o fim de 2017, a medicação tem o objetivo de impedir a multiplicação do HIV nas células de defesa do organismo, em caso de contaminação. A medida é uma tentativa de frear o crescimento de infecções pelo vírus – ela não previne outras ISTs.
Para conseguir a PrEP, destinada a grupos de vulnerabilidade, como profissionais do sexo e casais sorodiferentes – quando apenas um deles possui HIV -, o designer revela que teve de conversar insistentemente com servidores de um posto de saúde.
“Disseram que eu não poderia tomar, porque não faço parte da população-chave, por não vivenciar situações de risco de infecção e não ter, na época, uma vida sexual ativa. Mas eu insisti e disse que precisava do medicamento para que pudesse ter uma vida sexual saudável, sem tantos temores. Por fim, eles permitiram que eu tomasse o remédio.”
Mas mesmo com a PrEP e hoje tendo parceiro fixo, Juliano faz exames de HIV todos os meses, além dos trimestrais que fazem parte do tratamento. Ele procura diferentes unidades de saúde para conseguir os testes.
“Ainda me bate paranoia e eu preciso fazer os exames. Saio em busca de postos de saúde onde não tenho cadastro, em São Paulo. Todos os meses é a mesma procura. Sempre recorro a locais em que não saibam que eu uso a PrEP, porque senão me orientariam a fazer somente os exames trimestrais”, revela.
Trauma após infecção com o parceiro
A universitária Fernanda conta que o ginecologista que a acompanha avalia que ela deveria fazer exames de ISTs a cada seis meses, pois ela não passa por situações de risco de infecção. No entanto, ela insiste para fazer os testes a cada três ou quatro meses.
“Ele solicita esses exames sempre que eu peço, pois sabe que somente me acalmo ao ver os resultados negativos”, relata.
A busca por frequentes exames de ISTs tornou-se parte da vida da jovem há pouco mais de um ano, logo após ela descobrir que havia contraído herpes genital do primeiro namorado.
“Essa infecção me trouxe muitas feridas na vulva. Foi uma experiência muito traumática. Fiz o tratamento indicado e a situação melhorou. Mas como não há cura para herpes, faço acompanhamento frequente”, declara.
Logo após a descoberta da infecção, a estudante começou a pensar com frequência que também poderia ter contraído outras ISTs.
“Penso dia e noite sobre isso. Faço exames e dá negativo para todas as infecções. Mas o medo nunca cessou. Desde que recebi aquele diagnóstico de herpes, não há um dia em que não acorde pensando que estou com alguma doença.”
Os especialistas explicam que, para que uma pessoa tenha uma vida sexual saudável, é fundamental que seja feita a prevenção adequada, por meio do uso de preservativo – em caso de diferentes parceiros -, exames de rotina a cada seis meses e consultas médicas periódicas.
Os temores referentes a ISTs se tornam problemas quando o indivíduo deixa de acreditar nos exames e passa a fazê-los com frequência, mesmo sem vivenciar qualquer risco, e não confia mais em médicos que descartam a possibilidade de uma infecção. A situação costuma trazer dificuldades para a vida sexual da pessoa.
É o caso de Fernanda. “Inúmeras vezes me pego pensando, no meio da relação sexual, se estou tendo contato com alguma doença, mesmo usando preservativo”, diz.
Periodicamente, a jovem de Campinas (SP) faz exames para verificar se contraiu ISTs como HIV, sífilis, hepatites virais B e C ou Papilomavírus Humano (HPV). “Tenho medo absurdo de qualquer tipo de IST.”
Ela conta que chegou a se desesperar e perder o controle ao não conseguir marcar uma consulta médica.
“A carteirinha do meu plano de saúde foi negada. Eu desabei, comecei a chorar na mesa da secretária e gritei: ‘Preciso fazer meus exames’, no meio de um consultório lotado”, relata. Horas depois, foi atendida pelo ginecologista, que solicitou os exames.
Ajuda médica
Os casos de pessoas com pensamentos constantes sobre ISTs costumam ser encaminhados a psiquiatras. O diagnóstico pode variar conforme a situação vivida pela pessoa e a análise do médico. Os tratamentos costumam ser feitos por meio de psicoterapia e medicamentos.
Fernanda foi diagnosticada com hipocondria severa – transtorno no qual o paciente tem medo constante de estar doente ou desenvolver uma doença grave – e ansiedade.
“Faço uso de antidepressivos. Isso tem me ajudado muito e fez com que as minhas crises de ansiedade diminuíssem. Mas os pensamentos sobre ISTs ainda existem”, diz.
Maria e Juliano também foram diagnosticados com ansiedade, fazem acompanhamento com psiquiatras e tomam medicamentos para lidar com o transtorno.
“Os pensamentos continuam. Mas observei que eles não são mais constantes como antes, desde que comecei a psicoterapia”, diz Juliano, que também foi diagnosticado com depressão.
Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), os pensamentos intrusivos e sem fundamentos sobre ISTs podem ser, em muitos casos, características de um Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) com foco em relacionamentos sexuais.
“As obsessões são pensamentos que não saem da cabeça da pessoa. Mesmo que ela queira, não consegue se esquivar. Quem tem esses pensamentos relacionados a ISTs não está fora da realidade e não é uma pessoa psicótica. Pelo contrário, sabe que aquelas ideias não procedem, porque os exames confirmaram que não houve infecção. Porém, os pensamentos persistem, apesar das evidências contrárias”, detalha.
‘Espero que esses pensamentos passem logo’
Maria, Fernanda e Juliano possuem em comum o desejo de levar uma vida sexual saudável e sem preocupações desnecessárias sobre as ISTs.
“Eu acredito que, com o tempo, continuando o tratamento psicoterápico, possa melhorar esses pensamentos. Não é normal alguém ter esse medo todos os dias. Tenho certeza de que a minha vida seria mais leve se esses pensamentos não existissem. Eles me trazem um estresse absurdo diariamente”, diz Fernanda.
Para Maria, o medo se tornou seu maior problema.
“É importante se prevenir, mas não ficar com esses pensamentos sempre. Sinceramente, não sei quando vou entender que não fui infectada durante a minha última relação sexual. E será que não fui mesmo? Espero que esses pensamentos passem logo”, comenta a advogada.
“É surreal a forma como esse medo pode prejudicar a vida de alguém. E por mais que eu queira e busque os tratamentos adequados, não existe uma forma de garantir que eu nunca mais terei esses pensamentos”, diz Juliano.
BBC
Saúde
Doar sangue e salvar vidas: um gesto simples que transforma o mundo

Doar sangue para salvar vidas. Poucos gestos são tão simples e, ao mesmo tempo, tão poderosos quanto esse.
Em menos de uma hora, uma única doação pode beneficiar até quatro pessoas. Não é preciso ser herói nem ter habilidade especial. Basta ter saúde, disposição e sensibilidade para ajudar o próximo.
O sangue não possui substituto artificial. Nenhuma fábrica o produz. Nenhum laboratório consegue reproduzi-lo. Ele existe apenas em cada um de nós e só chega a quem precisa por meio da solidariedade humana. Cada doação é a demonstração concreta de que uma vida importa.
Pense na criança que necessita de transfusão durante uma cirurgia. Na mulher que enfrenta complicações após o parto. Na vítima de acidente que chega ao Pronto-Socorro em estado grave. No paciente em tratamento contra o câncer. Para cada um deles, uma bolsa de sangue pode representar a diferença entre a vida e a morte. Essa é a realidade diária dos hospitais brasileiros, inclusive aqui em Mato Grosso.
Neste 14 de junho, o mundo celebra o Dia Mundial do Doador de Sangue. Em 2026, a campanha da Organização Mundial da Saúde, no âmbito do ‘Junho Vermelho’, traz o tema “Doe sangue, dê esperança: juntos salvamos vidas”. Uma convocação que precisa ir além das datas e se tornar uma atitude permanente.
Tenho levado esse compromisso a sério na prática. Por meio dos mutirões sociais do Gabinete da Assembleia Legislativa, levamos campanhas de doação de sangue diretamente às comunidades de Cuiabá, chegando a quem muitas vezes não consegue se deslocar até os pontos de coleta. A própria ALMT firmou parceria com o MT Hemocentro para receber o caminhão de coleta em frente ao plenário, mobilizando servidores e a população. O Parlamento tem o dever de dar o exemplo.
A doação é uma das mais nobres expressões de solidariedade. Quem doa não conhece a pessoa beneficiada. Não há recompensa financeira nem interesse pessoal. Há apenas a decisão de estender a mão a alguém em extrema necessidade.
O sangue coletado é separado em hemácias, plasma e plaquetas, atendendo pacientes com necessidades distintas. Uma única doação tem potencial para ajudar várias pessoas.
Os hemocentros dependem de doações regulares. O sangue possui prazo de validade limitado, e a reposição constante é uma necessidade. Ser um doador regular é assumir um compromisso com a vida, com a comunidade e com quem você ama.
Qualquer pessoa saudável, entre 16 e 69 anos, e com mais de 50 quilos pode doar. O procedimento é seguro, rápido e praticamente indolor. O organismo repõe naturalmente o volume doado em pouco tempo.
Você dedica alguns minutos do seu dia. Em troca, oferece a alguém a oportunidade de continuar vivendo.
Convido cada mato-grossense a procurar o hemocentro mais próximo, fazer sua doação e incentivar familiares e amigos. Salvar vidas não depende de grandes recursos. Depende apenas da disposição de compartilhar o que carregamos dentro de nós.
Seja doador de sangue. Sua atitude pode ser a esperança que alguém espera para continuar vivendo.
*Max Russi é deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.
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