Saúde
Plantar a Lua: o polêmico ritual com sangue de menstruação
No apartamento onde vive, em São Paulo, a médica gaúcha de 27 anos pega o sangue da menstruação, passa parte do líquido no rosto e rega as plantas com o restante, diluído em água.
O ritual – que transforma em fotos, stories e textos explicativos – é parte de um movimento que cresce no Brasil e se espalha nas redes sociais com o nome de “Plantar a Lua”.
O movimento se inspira em “tradições ancestrais” em que o sangue menstrual é celebrado e visto como símbolo de fertilidade.
O ato também é apresentado como forma de combate a preconceitos.
“Nojo”
“Eu acho que aqui no Brasil a maior forma de preconceito é o nojo (do sangue) por parte da sociedade e na vergonha ou desconforto que as mulheres ainda sentem ao estarem menstruadas ou ao mostrarem seu sangue menstrual”, observa Laura.
A empresária Ana Oliveira, de 28 anos, diz que tal preconceito fica evidente no nojo que alguns homens expressam pelas parceiras menstruadas, no sexo, mas também “na falta de compreensão no mercado de trabalho sobre a cólica; em brincadeiras de mau gosto de homens e mulheres com o tema ou na forma como a Tensão Pré-Menstrual (TPM) chega a ser tratada, como se a mulher estivesse ‘louca’ nesse período”.
“Eu e muitas mulheres já vivemos essas experiências e o que o movimento faz é tentar mostrar como menstruar é algo biológico. É um processo pelo qual o corpo passa mensalmente que não é sujo e que devemos tratar com mais leveza”, diz Ana.
Ela planta a lua desde agosto de 2018.
Plantar a Lua
Discussões sobre menstruação e Plantar a Lua se espalham em posts, comentários e hashtags no Brasil, com traços de movimentos feministas que emergiram no passado e até da arte.
Estudos antropológicos mostram que o sangue menstrual é visto como sujo, impuro e até “perigoso” na história de diversas sociedades.
Também existem, no entanto, registros de culto a esse período.
“Diversas tradições ancestrais narram ritos e mencionam a importância da menstruação”, diz a terapeuta corporal e escritora Morena Cardoso, que pesquisa o tema. Ela testemunhou rituais e compartilha o que aprendeu com 32 mil seguidores no Facebook e 68 mil no Instagram – onde aparece com sangue no rosto.
Aos 34 anos, ela é fundadora do projeto “de empoderamento feminino” DanzaMedicina e criadora do Dia Mundial do Plante Sua Lua, que em 2018 reuniu cerca de 2 mil participantes e em 2019 terá nova edição em 4 de agosto.
O objetivo, diz, é “fomentar a ideia de que o sangue menstrual, assim como o ser mulher, não deve ser motivo de vergonha, nojo ou insatisfação, mas sim de orgulho, poder e magia!”. As participantes do evento plantam a lua juntas, em espaços públicos.
Como exemplos de tradições incorporadas ao movimento Morena cita práticas identificadas entre indígenas da América do Norte e em países como México e Peru.
Segundo essas tradições, diz ela, o sangue menstrual era depositado na terra para torná-la mais fértil, era celebrado como período de confraternização e trabalho espiritual das mulheres, ou ainda em ritos de passagem de meninas na primeira menstruação – “com uma simbologia sobre a honra de se tornar mulher”.
No Chile e no Brasil, essas tradições também são difundidas atualmente a partir de estudos da Ginecologia Natural, que defende o autoconhecimento e tratamentos alternativos para a mulher.
As adeptas têm encontrado diferentes formas de fazer o ritual – nem todas, por exemplo, passam o sangue no corpo.
Elas chamam menstruação de “lua” por ser um processo com fases e cíclos e enxergam nele diferentes significados.
No caso de Laura, o sangue que usa é retirado do “copinho” coletor menstrual, uma alternativa que escolheu a absorventes descartáveis.
Ao jogar o fluido nas plantas, ela repete ‘sinto muito, me perdoe, te amo, sou grata’ – um momento que define como de conexão com o próprio corpo e com a natureza. “Eu mentalizo que as plantas vão crescer lindas, e recebendo muitos nutrientes”.
Já quando usa o sangue em si, ela apenas fecha os olhos, agradece e diz sentir a energia.
Alvoroço
A gaúcha explica que, para ela, o fluido na pele simboliza “o resgate do feminino”.
É assim que aparece na página do Instagram que mantém. E foi assim que, no início de junho, um post seu no Twitter provocou “um alvoroço”.
Era uma selfie, com o rosto e parte do colo cobertos de menstruação.
“Como tinha 300 seguidores, esperava que fosse mais um post comum e apenas que pudesse ajudar alguma mulher que já estivesse interessada no assunto e que quisesse desconstruí-lo dentro de si”.
Quatro dias depois, entretanto, recebeu o print de um perfil “de memes” do Instagram com sua foto e a pergunta: “quanto tempo falta para essa galera começar a passar merda na cara?”.
O apresentador e comediante Danilo Gentili, com mais de 17 milhões de seguidores no Twitter, também compartilhou a imagem e afirmou: “Sangue menstrual é normal (…) o anormal é passar ele na cara”.
A maioria dos 2,3 mil comentários no post do apresentador e outros mais enviados diretamente à Laura concordavam com a visão de Gentili. Outros, falavam em nojo; diziam que ela deveria “procurar um psiquiatra” ou simplesmente a xingavam e ofendiam.
Poucos defenderam a gaúcha dizendo que ela tem direito de fazer o que bem entende com seu corpo. Poucos também acharam que a foto é uma maneira de “causar reflexão”.
“As pessoas pensam que o que não é comum para elas é aberração, não têm conhecimento da fisiologia do corpo e pensam que podem usar palavras de ódio para ferir qualquer um atrás da tela do celular”, disse ela à BBC News Brasil.
“Esse é um fluido do meu corpo e eu decido o que é anormal ou não já que não estou interferindo diretamente na vida de ninguém”, acrescenta. “Anormal deveria ser difamar pessoas, propagar energias negativas e ódio”.
A BBC News Brasil tentou entrevistar Danilo Gentili, mas ele não respondeu ao contato.
Laura diz que o episódio “só comprova o tabu que ainda existe em torno da menstruação”.
Tabus
Tabu é definido no dicionário como algo “proibido por crença supersticiosa, censurado por crença ou pudor ou, por exemplo, de caráter sagrado”.
Um estudo global com 1,5 mil entrevistadas de 14 a 24 anos – 300 delas do Brasil e as demais da Índia, África do Sul, Filipinas e Argentina – mostra um retrato disso no caso da menstruação: “preocupação na hora de descartar o absorvente usado no lixo, porque outras pessoas podem ver; medo de levantar da cadeira durante a aula; o absorvente escondido a caminho do banheiro e pedir um absorvente emprestado como se fosse um segredo”.
Tais preocupações foram manifestadas pela maioria das entrevistadas brasileiras, em nível maior que nos outros países.
Os dados foram levantados pela linha de produtos femininos Sempre Livre, da marca Johnson & Johnson, em parceria com a KYRA Pesquisa & Consultoria. Eles foram colhidos em março de 2018 e lançados, segundo a empresa, “para reforçar seu novo posicionamento baseado em um diálogo que reforça a naturalidade deste assunto”.
O documentário Absorvendo o Tabu, que ganhou o Oscar em 2019, ressalta que o estigma da menstruação persiste, usando uma região da Índia como exemplo.
O filme mostra a visão de uma mulher sobre a menstruação como sendo algo impuro do qual o corpo se livra: “o sangue impuro que sai”. Um homem define o sangramento como um tipo de doença feminina e mulheres menstruadas são proibidas de entrar no templo para rezar por serem vistas como sujas.
Nesse contexto e com difícil acesso a absorventes, elas têm vergonha de falar a respeito e uma admite que até largou a escola.
Brasil
Nas sociedades ocidentais, como é o caso da brasileira, a “visão eminentemente negativa” sobre menstruação também existe, segundo a antropóloga e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Daniela Tonelli Manica, que estuda o tema há 20 anos.
“Existe a visão da menstruação como sangria inútil e também da alocação dela na mesma categoria de excrementos como fezes e urina – como algo com que você tem que lidar no banheiro, algo que tem de estar absolutamente fora de vista”, diz.
Movimentos feministas do final dos anos 60 são apontados como cruciais para lançar luz sobre a questão.
É nesse período que a menstruação começa a aparecer em espaços públicos “de forma mais incisiva e com um efeito político importante”, diz a antropóloga, citando grupos de mulheres que se juntavam já nessa época para fazer o que ganha força agora online: falar sobre os próprios corpos e questões como gravidez e menstruação, “em espaços de mais autonomia, fora de consultórios”.
As novas manifestações, segundo ela, amplificam esses debates com as redes sociais e tentam resgatar “a especificidade, a importância da experiência de menstruar e do quanto ela é forte para as mulheres”.
“Essa ressignificação da menstruação e a evocação que muitos grupos contemporâneos fazem em relação a essa memória ancestral falam de um efeito de silenciamento somático que a biomedicina e o capitalismo produziram nas mulheres, como se esse aspecto do corpo (o sangue) não pudesse aparecer porque (por exemplo) a trabalhadora precisa ir cumprir as suas 8 horas de trabalho”.
BBC
Saúde
Doar sangue e salvar vidas: um gesto simples que transforma o mundo

Doar sangue para salvar vidas. Poucos gestos são tão simples e, ao mesmo tempo, tão poderosos quanto esse.
Em menos de uma hora, uma única doação pode beneficiar até quatro pessoas. Não é preciso ser herói nem ter habilidade especial. Basta ter saúde, disposição e sensibilidade para ajudar o próximo.
O sangue não possui substituto artificial. Nenhuma fábrica o produz. Nenhum laboratório consegue reproduzi-lo. Ele existe apenas em cada um de nós e só chega a quem precisa por meio da solidariedade humana. Cada doação é a demonstração concreta de que uma vida importa.
Pense na criança que necessita de transfusão durante uma cirurgia. Na mulher que enfrenta complicações após o parto. Na vítima de acidente que chega ao Pronto-Socorro em estado grave. No paciente em tratamento contra o câncer. Para cada um deles, uma bolsa de sangue pode representar a diferença entre a vida e a morte. Essa é a realidade diária dos hospitais brasileiros, inclusive aqui em Mato Grosso.
Neste 14 de junho, o mundo celebra o Dia Mundial do Doador de Sangue. Em 2026, a campanha da Organização Mundial da Saúde, no âmbito do ‘Junho Vermelho’, traz o tema “Doe sangue, dê esperança: juntos salvamos vidas”. Uma convocação que precisa ir além das datas e se tornar uma atitude permanente.
Tenho levado esse compromisso a sério na prática. Por meio dos mutirões sociais do Gabinete da Assembleia Legislativa, levamos campanhas de doação de sangue diretamente às comunidades de Cuiabá, chegando a quem muitas vezes não consegue se deslocar até os pontos de coleta. A própria ALMT firmou parceria com o MT Hemocentro para receber o caminhão de coleta em frente ao plenário, mobilizando servidores e a população. O Parlamento tem o dever de dar o exemplo.
A doação é uma das mais nobres expressões de solidariedade. Quem doa não conhece a pessoa beneficiada. Não há recompensa financeira nem interesse pessoal. Há apenas a decisão de estender a mão a alguém em extrema necessidade.
O sangue coletado é separado em hemácias, plasma e plaquetas, atendendo pacientes com necessidades distintas. Uma única doação tem potencial para ajudar várias pessoas.
Os hemocentros dependem de doações regulares. O sangue possui prazo de validade limitado, e a reposição constante é uma necessidade. Ser um doador regular é assumir um compromisso com a vida, com a comunidade e com quem você ama.
Qualquer pessoa saudável, entre 16 e 69 anos, e com mais de 50 quilos pode doar. O procedimento é seguro, rápido e praticamente indolor. O organismo repõe naturalmente o volume doado em pouco tempo.
Você dedica alguns minutos do seu dia. Em troca, oferece a alguém a oportunidade de continuar vivendo.
Convido cada mato-grossense a procurar o hemocentro mais próximo, fazer sua doação e incentivar familiares e amigos. Salvar vidas não depende de grandes recursos. Depende apenas da disposição de compartilhar o que carregamos dentro de nós.
Seja doador de sangue. Sua atitude pode ser a esperança que alguém espera para continuar vivendo.
*Max Russi é deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.
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