Saúde
Os ‘anjos’ que já salvaram milhares de vidas impedindo suicídios em ponte dos EUA
Embora várias pessoas o tenham visto na ponte pouco antes e uma turista tenha até pedido para ele tirar uma foto dela, ninguém percebeu que Hines estava angustiado ou perguntou se havia algo errado. Então, ele pulou.
Por um milagre, Hines sobreviveu à queda de 75 metros nas águas frias do Pacífico. No entanto, mais de 1,7 mil pessoas morreram ao pular da mesma ponte desde sua inauguração em maio de 1937, segundo dados oficiais.
A Golden Gate é a ponte mais visitada do mundo e também é um dos principais pontos de suicídio do planeta, a ponto de ter sua própria equipe de voluntários, a Bridgewatch Angels (anjos da brigada da ponte, em tradução livre), dedicada a detectar potenciais suicidas e salvar suas vidas com um método simples: ouvir o que têm a dizer.
Só em 2018, 214 pessoas tentaram pular. O fato de apenas 27 terem feito isso de fato é um sinal do sucesso do trabalho conjunto destes voluntários com a polícia.
O suicídio é um assassino global em grande escala. A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que ocorram cerca de 800 mil mortes por este motivo no mundo a cada ano .
De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a principal agência de saúde pública dos Estados Unidos, 47 mil pessoas tiraram suas próprias vidas no país em 2017, de acordo com os dados mais recentes disponíveis. O suicídio é hoje a segunda principal causa de morte entre os americanos com idades entre 10 e 34 anos.
Uma pessoa pode elaborar muitas razões para se matar, mas há uma forte ligação disso com problemas de saúde mental, especialmente depressão: 90% das pessoas que morrem por suicídio têm algum problema deste tipo ou teriam consumido substâncias químicas de forma abusiva no momento da morte, de acordo com a Save, uma organização americana de conscientização e prevenção de suicídio.
‘Tinha que fazer algo para ajudar’
Embora a depressão seja um distúrbio de saúde mental tratável, o suicídio costuma ser um ato impulsivo. O que os Bridgewatch Angels procuram fazer é impedir que o suicídio inviabilize esta possibilidade de recuperação.
Apesar de viver na região, a policial Mia Munayer não tinha conhecimento do legado sombrio da Golden Gate, até assistir em 2010 ao documentário The Bridge (A ponte, em inglês), sobre o assunto.
“Tinha que fazer algo para ajudar a impedir que mais pessoas morressem”, diz ela, que fundou então a Bridgewatch Angels. Desde 2011, os voluntários percorrem a ponte em datas importantes, como Dia dos Namorados ou véspera de Natal, e são treinados para abordar qualquer pessoa que achem que possa estar em perigo.
Munayer gastou mais de US$ 10 mil (R$ 41,5 mil) do próprio bolso para financiar as campanhas, que incluem seminários para pessoas interessadas em ajudar a patrulhar a ponte em épocas de maior preocupação.
A policial treina os voluntários para lidar com aqueles que parecem isolados e angustiados. Eles aprendem a detectar os sinais de alerta e maneiras de reagir a isso. Os voluntários fazem perguntas que podem começar com um simples “você está bem?”. É uma questão de estimular a pessoa a falar.
“Conversamos com as pessoas. Mostramos que não estão sozinhas. Nós ouvimos. Às vezes, essa é a melhor resposta. Mas é importante tentar não tocar nos assuntos sensíveis e apenas mantê-las conversando”, diz Munayer.
O guardião da Golden Gate
O sargento aposentado Kevin Briggs realizou paralelamente um trabalho semelhante. Ele não teve escolha ao se envolver com essa questão: por quase 20 anos, a Golden Gate fez parte de sua rota diária de patrulha.
Ele teve seu primeiro encontro com alguém tentando que tentava em 1994. “Na época, os policiais não tinham treinamento formal para lidar com essas situações. Fiquei aterrorizado quando vi uma jovem subindo no beiral”, diz Briggs.
Ele começou então a ler sobre como lidar com suicidas no seu tempo livre. “Foi uma boa ideia, porque, por quase 20 anos, tive de lidar com essas situações com muita frequência.”
“Às vezes, eu me questionava sobre as pessoas que salvei, como se fosse uma pesquisa. ‘O que eu disse de bom? O que eu disse ou fiz de ruim?'”, explica ele.
Ele ficou conhecido como “o guardião da Golden Gate” por ter convencido mais de 200 pessoas a não saltar. Fracassou em apenas duas ocasiões. “Você costuma se lembrar mais das pessoas com quem falhou do que daquelas que ajudou”, diz ele, que mais tarde lidaria um distúrbio de estresse pós-traumático por causa deste tipo de trabalho.
O ex-policial ganhou fama com um resgate de 2005 amplamente documentado pela imprensa local. Kevin Berthia tinha 22 anos, enfrentava uma depressão e tinha uma dívida de US$ 250 mil (R$ 1,03 milhão) por causa do tratamento de sua filha prematura. Briggs o encontrou prestes a saltar da ponte. “Conversamos por mais de 90 minutos, e ele desistiu”, lembra ele.
As imagens desta intervenção foi reproduzida pela mídia em todo o mundo. Berthia entregou oito anos depois a Briggs um prêmio concedido pela Fundação Americana para Prevenção do Suicídio.
“A Golden Gate é apenas um sinal do que está acontecendo nos Estados Unidos. O problema de saúde mental tornou-se grande demais para ser ignorado”, acredita Briggs.
Essa visão também parece ser compartilhada pelas autoridades que administram a ponte. Após décadas de discussão sobre a instalação de uma barreira física para as tentativas de suicídio, a construção desta estrutura começou no final de 2017.
Uma rede de seis metros de largura ficará localizada seis metros abaixo da ponte. O site oficial da Golden Gate alerta que as pessoas que caírem ou saltarem “ainda poderão ficar feridas” ao fazer isso. A um custo de US$ 200 milhões (R$ 829,9 milhões), ficará pronta em 2021.
As estatísticas apontam ser improvável que potenciais suicidas da Golden Gate tentem se matar novamente. Munayer cita um estudo do psiquiatra Richard Seiden, que acompanhou pessoas que desistiram de pular da ponte entre 1937 e 1971. Seiden descobriu que, dos 515 indivíduos dissuadidos, apenas 25 se mataram mais tarde.
‘Mitos do suicídio’
Munayer acredita que iniciativas como o documentário The Bridge tocam em um ponto sensível e confrontam o que ela chama de “mitos do suicídio”.
“Às vezes, o simples ato de iniciar uma conversa casual pode ser suficiente para dissuadir alguém de tirar a própria vida. “Então, por que não deveríamos debater essa questão mais abertamente na sociedade?”, questiona Munayer.
Poucas pessoas que saltam sobrevivem para contar sua experiência. Pular da ponte Golden Gate significa atingir a água a quase 140 km/h. A taxa de mortalidade é de mais de 95%, segundo dados oficiais.
Os poucos sobreviventes que falam publicamente sobre isso invariavelmente dizem ter lamentado a decisão de pular imediatamente após o salto. Alguns fazem parte do lobby para aumentar as medidas de segurança na ponte. “Essa ponte é uma mensageira da morte”, disse Kevin Hines, que pulou em agosto de 2000, à emissora CNN.
“Eu não teria feito isso se alguém tivesse me abordado. Eu estava chorando e desorientado. Ninguém parou para perguntar o que estava errado. Finalmente, uma turista me parou. Ela queria uma foto sua. Concordei, e cinco cliques depois, eu ainda estava chorando, e ela foi embora. Eu sabia que ninguém se importava. Dei um passo para trás e me joguei.”
Hines agora fala sobre sua experiência e é um ativista em questões de saúde mental e prevenção de suicídios, usando o slogan #BeHereTomorrow (#EstejaAquiAmanhã, em inglês).
“Se você vê alguém sofrendo, é seu dever se envolver e tentar fazer a pessoa se abrir e compartilhar o que está acontecendo em sua mente. Você pode ser um agente de mudança.”
Precisa de ajuda?
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece serviços de apoio emocional e prevenção de suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, email, chat e voip 24 horas todos os dias.
A ligação para o CVV em parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS), por meio do número 188, são gratuitas a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular. Também é possível acessar www.cvv.org.br para chat, Skype, e-mail e mais informações sobre ligação gratuita.
BBC
Saúde
Doar sangue e salvar vidas: um gesto simples que transforma o mundo

Doar sangue para salvar vidas. Poucos gestos são tão simples e, ao mesmo tempo, tão poderosos quanto esse.
Em menos de uma hora, uma única doação pode beneficiar até quatro pessoas. Não é preciso ser herói nem ter habilidade especial. Basta ter saúde, disposição e sensibilidade para ajudar o próximo.
O sangue não possui substituto artificial. Nenhuma fábrica o produz. Nenhum laboratório consegue reproduzi-lo. Ele existe apenas em cada um de nós e só chega a quem precisa por meio da solidariedade humana. Cada doação é a demonstração concreta de que uma vida importa.
Pense na criança que necessita de transfusão durante uma cirurgia. Na mulher que enfrenta complicações após o parto. Na vítima de acidente que chega ao Pronto-Socorro em estado grave. No paciente em tratamento contra o câncer. Para cada um deles, uma bolsa de sangue pode representar a diferença entre a vida e a morte. Essa é a realidade diária dos hospitais brasileiros, inclusive aqui em Mato Grosso.
Neste 14 de junho, o mundo celebra o Dia Mundial do Doador de Sangue. Em 2026, a campanha da Organização Mundial da Saúde, no âmbito do ‘Junho Vermelho’, traz o tema “Doe sangue, dê esperança: juntos salvamos vidas”. Uma convocação que precisa ir além das datas e se tornar uma atitude permanente.
Tenho levado esse compromisso a sério na prática. Por meio dos mutirões sociais do Gabinete da Assembleia Legislativa, levamos campanhas de doação de sangue diretamente às comunidades de Cuiabá, chegando a quem muitas vezes não consegue se deslocar até os pontos de coleta. A própria ALMT firmou parceria com o MT Hemocentro para receber o caminhão de coleta em frente ao plenário, mobilizando servidores e a população. O Parlamento tem o dever de dar o exemplo.
A doação é uma das mais nobres expressões de solidariedade. Quem doa não conhece a pessoa beneficiada. Não há recompensa financeira nem interesse pessoal. Há apenas a decisão de estender a mão a alguém em extrema necessidade.
O sangue coletado é separado em hemácias, plasma e plaquetas, atendendo pacientes com necessidades distintas. Uma única doação tem potencial para ajudar várias pessoas.
Os hemocentros dependem de doações regulares. O sangue possui prazo de validade limitado, e a reposição constante é uma necessidade. Ser um doador regular é assumir um compromisso com a vida, com a comunidade e com quem você ama.
Qualquer pessoa saudável, entre 16 e 69 anos, e com mais de 50 quilos pode doar. O procedimento é seguro, rápido e praticamente indolor. O organismo repõe naturalmente o volume doado em pouco tempo.
Você dedica alguns minutos do seu dia. Em troca, oferece a alguém a oportunidade de continuar vivendo.
Convido cada mato-grossense a procurar o hemocentro mais próximo, fazer sua doação e incentivar familiares e amigos. Salvar vidas não depende de grandes recursos. Depende apenas da disposição de compartilhar o que carregamos dentro de nós.
Seja doador de sangue. Sua atitude pode ser a esperança que alguém espera para continuar vivendo.
*Max Russi é deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.
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