Saúde
A difícil decisão sobre a hora de sair de cena
Na coluna de quinta-feira, escrevi sobre a atriz Glenda Jackson, que completará 83 anos em maio e acaba de estrear na Broadway. No palco, encarna o rei Lear, cuja dimensão dramática foi definida pelo mítico ator Laurence Olivier dessa forma: “quando se é jovem, Lear não parece real; quando se chega à minha idade, ele existe em cada nervo do meu corpo”. Tomo essa tragédia de William Shakespeare, escrita por volta de 1605, como ponto de partida para uma reflexão espinhosa a respeito da difícil decisão sobre a hora de sair de cena.
Na peça, o rei Lear está velho e resolve dividir o reino entre as filhas, mas usa como critério para a partilha que elas exprimam a gratidão e o amor que sentem pelo pai. Goneril, a primogênita, e Regan, a do meio, o bajulam sem pudor, enquanto Cordélia, a caçula, não consegue expressar seus sentimentos por meio de elogios e acaba sendo deserdada e expulsa. Depois será a vez de Lear ser traído pelas filhas interesseiras que detêm o poder. Destituído da pompa que o cercava, é o bobo da corte que lhe diz sem meias palavras: “não devias ter envelhecido antes de ficares sábio”. Ao optar pela adulação de Goneril e Regan, Lear faz com que sua vaidade se transforme em sua ruína.
O bônus da longevidade, que nos presenteou com décadas de vida, também encerra uma questão quase shakespeariana. Será que seremos suficientemente sábios para ter a humildade de reconhecer que já não temos as habilidades necessárias para continuar a exercer nossas atividades? Num curto intervalo de tempo, dois grandes jornais norte-americanos se debruçaram sobre o assunto: no começo de fevereiro, “The New York Times” fez uma reportagem intitulada “Quando o cirurgião está velho demais para operar?” (“When is the surgeon too old to operate?”). Afinal, pacientes dependem da destreza dessas mãos, além da sua agilidade mental para tomar decisões no caso de uma complicação. Em 2015, um quarto dos médicos dos Estados Unidos tinha mais de 65 anos.
No fim de março, “The Washington Post” publicou o artigo “Quando um médico idoso deve dizer que está deixando a carreira?” (“When should an aging doctor call it quits?”). O interessante é que foi escrito por Jonathan Maltz, um clínico de 70 anos em atividade há quatro décadas. Ele cita casos de conhecidos que enfrentam dificuldades, como a perda da memória recente, e lista sinais que indicam que o profissional não está apto para atender pacientes. São eles: quando seu médico de longa data não o reconhece ou o confunde com outra pessoa; se as respostas às suas dúvidas ou as orientações que dá são confusas; quando se esquece de pedir exames, dar resultados ou encaminhá-lo a um especialista; quando não ouve, nem enxerga bem, ou apresenta um visível tremor nas mãos.
A Constituição garante o acesso ao mercado de trabalho aos brasileiros sem qualquer distinção e assegura a todos o direito de exercer profissão ou ofício de sua livre escolha, proibindo qualquer tipo de discriminação, inclusive de idade. É claro que a discussão não pode se resumir à idade cronológica, nem essa é uma reflexão circunscrita à medicina – embora o tema seja mais sensível nesse meio por causa do impacto na vida das pessoas. Sair de cena não significa ficar encerrado em casa, e sim ter lucidez sobre o momento de abraçar outros prazeres e aptidões numa nova etapa da existência.
Bem Estar
Saúde
Doar sangue e salvar vidas: um gesto simples que transforma o mundo

Doar sangue para salvar vidas. Poucos gestos são tão simples e, ao mesmo tempo, tão poderosos quanto esse.
Em menos de uma hora, uma única doação pode beneficiar até quatro pessoas. Não é preciso ser herói nem ter habilidade especial. Basta ter saúde, disposição e sensibilidade para ajudar o próximo.
O sangue não possui substituto artificial. Nenhuma fábrica o produz. Nenhum laboratório consegue reproduzi-lo. Ele existe apenas em cada um de nós e só chega a quem precisa por meio da solidariedade humana. Cada doação é a demonstração concreta de que uma vida importa.
Pense na criança que necessita de transfusão durante uma cirurgia. Na mulher que enfrenta complicações após o parto. Na vítima de acidente que chega ao Pronto-Socorro em estado grave. No paciente em tratamento contra o câncer. Para cada um deles, uma bolsa de sangue pode representar a diferença entre a vida e a morte. Essa é a realidade diária dos hospitais brasileiros, inclusive aqui em Mato Grosso.
Neste 14 de junho, o mundo celebra o Dia Mundial do Doador de Sangue. Em 2026, a campanha da Organização Mundial da Saúde, no âmbito do ‘Junho Vermelho’, traz o tema “Doe sangue, dê esperança: juntos salvamos vidas”. Uma convocação que precisa ir além das datas e se tornar uma atitude permanente.
Tenho levado esse compromisso a sério na prática. Por meio dos mutirões sociais do Gabinete da Assembleia Legislativa, levamos campanhas de doação de sangue diretamente às comunidades de Cuiabá, chegando a quem muitas vezes não consegue se deslocar até os pontos de coleta. A própria ALMT firmou parceria com o MT Hemocentro para receber o caminhão de coleta em frente ao plenário, mobilizando servidores e a população. O Parlamento tem o dever de dar o exemplo.
A doação é uma das mais nobres expressões de solidariedade. Quem doa não conhece a pessoa beneficiada. Não há recompensa financeira nem interesse pessoal. Há apenas a decisão de estender a mão a alguém em extrema necessidade.
O sangue coletado é separado em hemácias, plasma e plaquetas, atendendo pacientes com necessidades distintas. Uma única doação tem potencial para ajudar várias pessoas.
Os hemocentros dependem de doações regulares. O sangue possui prazo de validade limitado, e a reposição constante é uma necessidade. Ser um doador regular é assumir um compromisso com a vida, com a comunidade e com quem você ama.
Qualquer pessoa saudável, entre 16 e 69 anos, e com mais de 50 quilos pode doar. O procedimento é seguro, rápido e praticamente indolor. O organismo repõe naturalmente o volume doado em pouco tempo.
Você dedica alguns minutos do seu dia. Em troca, oferece a alguém a oportunidade de continuar vivendo.
Convido cada mato-grossense a procurar o hemocentro mais próximo, fazer sua doação e incentivar familiares e amigos. Salvar vidas não depende de grandes recursos. Depende apenas da disposição de compartilhar o que carregamos dentro de nós.
Seja doador de sangue. Sua atitude pode ser a esperança que alguém espera para continuar vivendo.
*Max Russi é deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.
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