Economia
Pivetta busca transformar força do agronegócio em indústria, consumo e maior capacidade de arrecadação

Reforma tributária amplia debate sobre industrialização, verticalização das cadeias produtivas e necessidade de fortalecer o mercado consumidor no Estado
Mato Grosso chega à fase de implementação da reforma tributária diante de um desafio que pode redefinir parte de sua estratégia de desenvolvimento: como transformar uma economia fortemente baseada na produção de commodities em uma economia capaz de gerar mais valor, empregos, renda, consumo e arrecadação dentro do próprio território.
O tema ganhou destaque no debate entre os candidatos ao Governo de Mato Grosso, a partir de uma pergunta de Natasha Slhessarenko (PSD) ao governador Otaviano Pivetta (Republicanos) sobre os possíveis efeitos da reforma tributária nas receitas estaduais.
A discussão colocou em evidência uma questão estrutural da economia mato-grossense. O Estado é uma potência nacional na produção de soja, milho e algodão, mas boa parte dessa produção ainda deixa o território na forma de matéria-prima ou de produtos com menor grau de transformação. Ao mesmo tempo, Mato Grosso possui uma população relativamente pequena diante do tamanho de sua produção econômica.
Esse desequilíbrio entre produção e consumo é justamente um dos pontos de atenção levantados pela nova sistemática tributária.
A reforma cria o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de competência compartilhada entre estados e municípios, e adota o princípio do destino, pelo qual a tributação do consumo passa a ser direcionada para o local onde ocorre o consumo. A transição do modelo atual para o novo sistema ocorrerá gradualmente, com a substituição progressiva do ICMS pelo IBS entre 2029 e 2032 e a vigência integral do novo modelo a partir de 2033.
Para Mato Grosso, a mudança é particularmente relevante porque o Estado ocupa posição de destaque na produção nacional, mas possui uma população muito menor que a de grandes mercados consumidores.
Documentos da própria Secretaria de Estado de Fazenda reconhecem esse ponto como um risco estrutural. Segundo a análise fiscal estadual, Mato Grosso está exposto aos efeitos do princípio do destino por ser um grande produtor de produtos primários, de baixo valor agregado em comparação aos produtos industrializados, enquanto possui uma população menor e, portanto, um mercado consumidor proporcionalmente reduzido.
O desafio de transformar produção em valor
Foi justamente nesse cenário que Pivetta apresentou, durante o debate, a verticalização das cadeias produtivas como uma das principais estratégias para enfrentar os efeitos da reforma.
Questionado sobre uma estimativa de perda de aproximadamente R$ 1 bilhão nas receitas de Mato Grosso, o governador afirmou que a resposta não estaria no aumento de impostos, mas na ampliação da própria economia.
A estimativa de perda para Mato Grosso em 2029 também vem sendo discutida por entidades municipalistas. A Associação Mato-grossense dos Municípios informou, em julho de 2026, que as projeções do Governo do Estado apontavam para perdas de aproximadamente R$ 1 bilhão naquele ano, dos quais cerca de R$ 250 milhões poderiam atingir os municípios mato-grossenses.
Na avaliação apresentada por Pivetta, o Estado teria realizado nos últimos anos uma primeira etapa de desenvolvimento baseada na infraestrutura e na expansão da capacidade produtiva. O próximo ciclo, segundo sua argumentação, seria marcado pela industrialização.
“O ciclo agora é verticalização, é industrialização do Estado para agregar valor, gerar melhores empregos e também arrecadar mais”, afirmou.
A lógica econômica é relativamente direta: quanto maior a quantidade de etapas produtivas realizadas dentro de Mato Grosso, maior tende a ser a circulação de renda, serviços, empregos e investimentos no território.
Em vez de vender apenas a soja, por exemplo, o Estado pode ampliar a produção de óleo, farelo, proteína, biodiesel e outros derivados. No milho, a transformação pode envolver etanol, óleo, farelo, ração animal e outros produtos. No algodão, o processo pode avançar para beneficiamento, fiação, tecidos, confecção e outros segmentos industriais.
O objetivo é fazer com que uma parcela maior da riqueza gerada no campo permaneça dentro do Estado antes de chegar ao consumidor final.
Mato Grosso já parte de uma escala produtiva extraordinária
A dimensão desse potencial pode ser observada pelos números da produção agrícola.
Mato Grosso continua sendo o principal produtor brasileiro de soja. Em levantamento do IBGE de 2025, o Estado aparecia com estimativa de aproximadamente 48,8 milhões de toneladas da oleaginosa, representando mais de um quarto da produção nacional.
No algodão, a liderança também é expressiva. O IBGE estimou para Mato Grosso participação de aproximadamente 71% da produção brasileira em 2025.
No milho de segunda safra, o Estado também ocupa posição dominante, respondendo por cerca de 46% da produção nacional dessa modalidade em estimativa do IBGE para 2025.
Esses números mostram que a discussão sobre industrialização não parte de uma base produtiva pequena. Ao contrário: Mato Grosso já dispõe de uma das maiores concentrações de matérias-primas agrícolas do país.
O desafio passa a ser transformar escala agrícola em complexidade econômica.
Da fazenda para a indústria
A verticalização pode produzir efeitos em diferentes níveis.
Uma cadeia de soja mais industrializada, por exemplo, demanda plantas industriais, armazenagem, transporte, energia, manutenção, tecnologia, laboratórios, serviços financeiros e mão de obra especializada.
A cadeia do milho possui potencial semelhante. A transformação do cereal em etanol, óleo e farelo cria novos elos entre agricultura, indústria energética, produção de proteína animal e logística.
O próprio Pivetta tem utilizado esse modelo como exemplo da estratégia de desenvolvimento. Em junho de 2026, durante evento relacionado à colheita do milho, o governador afirmou que o cereal vem deixando de ser apenas uma commodity para se transformar em produtos como etanol, farelo e óleo, mantendo uma parcela maior da riqueza dentro de Mato Grosso.
O processo também pode estimular a instalação de frigoríficos, fábricas de ração, indústrias de alimentos, empresas de biotecnologia, fabricantes de equipamentos e prestadores de serviços especializados.
Cada novo elo acrescentado à cadeia pode representar uma nova atividade econômica.
O algodão como exemplo do potencial de transformação
Durante o debate, Natasha Slhessarenko utilizou o algodão como exemplo do que considera uma contradição na economia estadual.
A candidata questionou o fato de Mato Grosso possuir liderança nacional na produção da fibra e, ao mesmo tempo, não contar com uma indústria têxtil proporcional à dimensão dessa produção.
A provocação resume um dos grandes desafios econômicos do Estado: produzir muito não significa necessariamente capturar toda a riqueza gerada pela produção.
O algodão colhido em Mato Grosso pode ser beneficiado, comercializado e posteriormente transformado em fios, tecidos e roupas em outras regiões. Nesse processo, parte dos empregos, investimentos, serviços e tributos relacionados às etapas posteriores também fica fora do Estado.
A proposta de verticalização procura inverter parte dessa lógica.
Na visão apresentada por Pivetta, a região metropolitana de Cuiabá poderia receber investimentos voltados à cadeia têxtil, aproveitando a infraestrutura logística e a futura ampliação da conexão ferroviária.
O objetivo seria criar um novo corredor econômico entre o campo e a indústria.
A ferrovia como instrumento de industrialização
A infraestrutura logística aparece como outro componente central dessa estratégia.
A Ferrovia Estadual de Mato Grosso, atualmente em implantação, conecta a produção estadual à malha ferroviária nacional. O projeto da Ferrovia Senador Vicente Emílio Vuolo prevê 743 quilômetros, ligando Rondonópolis a Lucas do Rio Verde, com ramal para Cuiabá, e investimento privado informado de R$ 12 bilhões.
Em junho de 2026, foi inaugurado o primeiro trecho, com 162 quilômetros entre Rondonópolis e Dom Aquino. Segundo informações divulgadas à época, essa etapa recebeu investimento de R$ 5 bilhões.
A importância da ferrovia, entretanto, vai além do transporte de grãos.
Uma infraestrutura logística mais eficiente pode reduzir custos para as empresas, melhorar a competitividade dos produtos e facilitar tanto a chegada de insumos quanto a saída da produção industrial.
Esse efeito pode ser decisivo para a industrialização.
Uma fábrica precisa receber máquinas, equipamentos, componentes, embalagens, combustíveis e outros insumos. Também precisa enviar sua produção aos mercados consumidores. Quanto mais eficiente for a logística, maior a possibilidade de determinados empreendimentos se tornarem economicamente viáveis.
Estudo acadêmico sobre os impactos econômicos da construção da ferrovia estadual estimou efeitos positivos sobre produção, valor adicionado, empregos e salários durante a fase de implementação do projeto.
BR-163 e o modelo de Lucas do Rio Verde e Nova Mutum
Pivetta também citou, durante o debate, municípios do eixo da BR-163, especialmente Lucas do Rio Verde e Nova Mutum, como exemplos de localidades onde a produção agropecuária avançou junto com a industrialização.
Esses municípios representam uma mudança importante na lógica tradicional do agronegócio.
Em vez de simplesmente produzir e transportar, o território passa a concentrar armazenagem, esmagamento, produção de alimentos, energia, proteína animal, biocombustíveis, serviços e outras atividades.
Esse modelo pode ser replicado em diferentes regiões, respeitando as características de cada uma.
A estratégia também ajuda a explicar por que infraestrutura e industrialização estão diretamente relacionadas.
O crescimento econômico como estratégia fiscal
A tese apresentada por Pivetta durante o debate é que Mato Grosso pode compensar parte dos efeitos da reforma tributária não pela elevação da carga tributária, mas pelo aumento da atividade econômica.
A lógica é baseada em quatro movimentos:
mais produção → mais industrialização → mais empregos e renda → mais consumo.
Com uma economia maior, a base sobre a qual incidem os tributos também pode crescer.
Essa estratégia, porém, depende de diversos fatores que estão além da decisão do governo estadual, como investimentos privados, disponibilidade de energia, mão de obra qualificada, infraestrutura, condições de mercado, crédito, competitividade logística e regras tributárias.
Por isso, a verticalização é uma possibilidade de desenvolvimento, mas não elimina automaticamente os desafios fiscais provocados pela reforma.
O consumo passa a ter importância ainda maior
A discussão levantada por Natasha trouxe outro aspecto importante: o tamanho do mercado consumidor.
A reforma tributária altera a lógica de distribuição da arrecadação ao privilegiar o destino do consumo. A Receita Federal explica que o novo modelo adota justamente esse princípio como uma de suas características centrais.
Para Mato Grosso, isso significa que aumentar o consumo interno pode ganhar importância estratégica.
Mais moradores, mais renda e mais empresas podem significar maior demanda por imóveis, veículos, alimentos, serviços, educação, saúde, lazer, tecnologia, comércio e outros produtos.
O crescimento populacional, portanto, passa a ter também uma dimensão econômica e fiscal.
É nesse contexto que Pivetta mencionou projeções de longo prazo segundo as quais Mato Grosso teria capacidade de continuar apresentando crescimento demográfico enquanto outros estados enfrentariam redução populacional.
Independentemente das projeções específicas, o ponto central é que o tamanho do mercado interno será um componente cada vez mais importante para uma economia cuja produção já ultrapassou, em escala, sua capacidade de consumo proporcional.
Qualificação profissional é parte da equação
A industrialização também muda o perfil da mão de obra necessária.
Uma economia baseada predominantemente na produção primária demanda trabalhadores com determinadas qualificações. Uma economia industrializada e integrada a serviços tecnológicos exige profissionais em áreas como engenharia, manutenção, automação, logística, química, administração, tecnologia da informação, controle de qualidade e gestão.
Por isso, Pivetta associou a industrialização à qualificação de jovens ainda no ensino médio.
O raciocínio é que a atração de empresas precisa ser acompanhada pela formação de trabalhadores capazes de ocupar os postos criados.
Sem mão de obra qualificada, parte dos empregos de maior remuneração pode acabar sendo preenchida por profissionais de fora do Estado, reduzindo o efeito multiplicador da industrialização sobre a renda local.
Baixada Cuiabana aparece como novo eixo industrial
A Baixada Cuiabana surge nesse cenário como uma das regiões com maior potencial para diversificar a economia.
A região possui mercado consumidor maior que grande parte do interior, concentra serviços, instituições de ensino, mão de obra e infraestrutura urbana e pode se beneficiar da conexão ferroviária.
A ideia apresentada por Pivetta é utilizar essa combinação para atrair indústrias de transformação.
O projeto ferroviário já nasceu com a perspectiva de ampliar a conexão de Cuiabá com a produção e com a malha nacional. Desde sua concepção, a ferrovia foi apresentada como instrumento não apenas de escoamento agrícola, mas também de estímulo à indústria e ao comércio.
A industrialização da Baixada poderia, portanto, representar uma mudança importante na geografia econômica estadual.
Um Estado produtor que busca consumir mais
O debate entre Pivetta e Natasha expôs, em termos políticos, uma questão que possui dimensão econômica mais ampla: Mato Grosso precisa transformar sua enorme capacidade de produção em uma economia mais diversificada e com maior mercado interno.
A própria análise fiscal da Sefaz-MT aponta o risco associado à combinação de alta produção primária, baixo valor agregado e população relativamente pequena.
Isso significa que a reforma tributária funciona como uma espécie de acelerador de uma discussão que já existia.
O Estado pode continuar aumentando a produção agrícola, mas o crescimento da quantidade produzida não necessariamente resolve o problema da arrecadação se grande parte dos produtos for transformada e consumida em outros territórios.
A alternativa passa por agregar etapas produtivas.
O desafio de criar um ciclo econômico completo
O potencial econômico de Mato Grosso está, portanto, menos relacionado à necessidade de descobrir uma nova vocação e mais à capacidade de aproveitar uma vocação que o Estado já possui.
A matéria-prima já existe em escala mundial.
A soja, o milho e o algodão estão entre os principais ativos econômicos do território. O que está em disputa é onde ocorrerão as próximas etapas da cadeia produtiva.
Se a soja for transformada em óleo, farelo, proteína e outros derivados dentro do Estado, novos negócios podem surgir.
Se o milho for convertido em etanol, óleo e produtos para alimentação animal, aumenta a integração entre agricultura, energia e indústria.
Se o algodão avançar para fiação, tecidos e confecção, uma cadeia produtiva hoje fortemente concentrada na produção agrícola pode ganhar novos segmentos.
O mesmo princípio pode ser aplicado à pecuária, mineração, alimentos, bioenergia e outras atividades.
A grande oportunidade está no efeito multiplicador
O principal argumento econômico em favor da verticalização não está apenas no valor de venda do produto industrializado.
Está no chamado efeito multiplicador.
Uma lavoura movimenta máquinas, fertilizantes, sementes, defensivos, combustível, crédito, transporte e armazenagem. Quando a matéria-prima também é industrializada, entram na equação energia, equipamentos industriais, manutenção, tecnologia, embalagens, laboratórios, serviços especializados, logística, comércio e mão de obra.
Cada etapa acrescentada cria novas oportunidades de negócio.
Esse processo pode resultar em maior massa salarial, maior arrecadação e maior mercado consumidor.
É essa cadeia de efeitos que está por trás da estratégia apresentada no debate.
Reforma tributária impõe planejamento de longo prazo
A reforma não ocorrerá de uma só vez.
Segundo o cronograma oficial, 2026 é o ano de teste do IBS e da CBS. Entre 2027 e 2028 haverá mudanças adicionais, enquanto de 2029 a 2032 ocorrerá a transição gradual do ICMS e do ISS para o IBS. O novo modelo terá vigência integral em 2033.
Isso significa que Mato Grosso possui alguns anos para adaptar sua estrutura econômica.
Ao mesmo tempo, o sistema prevê mecanismos de transição e compensação destinados a reduzir os efeitos abruptos da mudança na distribuição das receitas. A própria arquitetura da reforma contempla um longo período de transição para a distribuição do IBS.
O tamanho efetivo das perdas ou ganhos dependerá, portanto, não apenas da reforma em si, mas também da evolução da economia, da regulamentação, do comportamento do consumo e da capacidade dos estados de atrair investimentos.
O que está em jogo para Mato Grosso
O debate eleitoral colocou em evidência uma questão que vai além da disputa política: o futuro modelo econômico de Mato Grosso.
O Estado já conquistou uma posição excepcional na produção agropecuária brasileira. O próximo desafio é transformar essa escala em uma economia mais diversificada.
Isso envolve infraestrutura, ferrovia, rodovias, energia, educação, qualificação profissional, crédito, segurança jurídica, tecnologia, ambiente de negócios e capacidade de atrair investimentos privados.
A verticalização da soja, do milho e do algodão pode ser uma das principais frentes dessa transformação.
A industrialização, por sua vez, pode aumentar o número de empregos qualificados e criar novas fontes de renda.
O crescimento do mercado consumidor pode fortalecer a economia de serviços e ampliar a base tributária.
E uma logística mais eficiente pode melhorar a competitividade dos produtos fabricados no Estado.
De exportador de matéria-prima a plataforma de produção
Mato Grosso tem condições para deixar de ser visto apenas como um grande produtor agrícola e consolidar-se como uma plataforma integrada de produção, indústria, energia e logística.
O desafio é transformar o diferencial competitivo do campo em vantagem competitiva para toda a economia.
Essa transição não acontece apenas com anúncios de novas fábricas. Ela exige planejamento de longo prazo e articulação entre setor público e iniciativa privada.
Também exige que a industrialização seja economicamente competitiva. Empresas precisam encontrar condições para produzir em Mato Grosso com custos compatíveis com os de outras regiões.
Nesse ponto, infraestrutura, energia, mão de obra e logística terão papel decisivo.
Uma nova etapa para a economia estadual
As declarações feitas durante o debate mostram que a reforma tributária colocou uma nova urgência sobre um tema antigo: a necessidade de diversificar a economia mato-grossense.
A diferença é que, agora, a mudança no sistema tributário torna o tamanho do mercado consumidor ainda mais relevante.
A resposta apresentada por Pivetta é baseada em crescimento econômico, industrialização e verticalização. Natasha, por sua vez, também apontou a necessidade de aumentar o consumo e de instalar indústrias de transformação no Estado, embora tenha questionado o ritmo e a execução das iniciativas.
Sem tomar posição sobre as candidaturas ou sobre qual estratégia seria mais adequada, os dados econômicos ajudam a dimensionar o tamanho da oportunidade.
Mato Grosso tem uma das maiores bases produtivas agrícolas do Brasil, liderança nacional em culturas estratégicas e uma infraestrutura logística em expansão. O Estado também começa a ampliar sua integração ferroviária e possui polos industriais que demonstram que a agroindustrialização é possível em diferentes regiões.
A questão central para os próximos anos será transformar essa capacidade em um ciclo econômico mais completo.
Produzir mais continuará sendo importante. Mas, diante da nova lógica tributária, o desafio será também transformar mais, vender mais produtos de maior valor agregado, gerar mais empregos qualificados e ampliar o consumo dentro do próprio território.
Se conseguir avançar nessa direção, Mato Grosso poderá reduzir sua dependência da exportação de matérias-primas e capturar uma parcela maior da riqueza produzida por sua própria economia.
A reforma tributária, nesse sentido, não representa apenas um risco fiscal. Ela também pode funcionar como estímulo para uma mudança estrutural: transformar a potência agrícola de Mato Grosso em uma economia cada vez mais industrial, diversificada e integrada.
Economia
Cesta básica consome mais da metade do salário mínimo e pressiona poder de compra em Mato Grosso
Em Cuiabá, conjunto de alimentos chega a R$ 859,34 e custa 7,88% mais que há um ano; alta expõe perda do poder aquisitivo das famílias brasileiras
Colocar comida na mesa continua sendo um dos principais desafios do orçamento das famílias brasileiras. Em Mato Grosso, a situação chama ainda mais atenção: mesmo em um estado reconhecido nacionalmente como uma potência na produção agropecuária, a capital Cuiabá mantém um dos custos de alimentação básica mais elevados do país.
Na primeira semana de setembro, o custo médio da cesta básica cuiabana chegou a R$ 859,34, após alta de 2,17% em apenas uma semana, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa e Análise da Fecomércio Mato Grosso (IPF-MT).
Na comparação com o mesmo período de 2025, quando a cesta custava R$ 796,58, o aumento chega a 7,88%.
O impacto sobre o poder aquisitivo é expressivo. Considerando o salário mínimo nacional de R$ 1.621 em 2026, o valor atual da cesta em Cuiabá equivale a aproximadamente 53% de todo o salário mínimo bruto de um trabalhador. Isso significa que, antes mesmo de pagar aluguel, energia elétrica, água, transporte, medicamentos, educação e outras despesas essenciais, mais da metade do piso nacional pode ser absorvida apenas pelos alimentos básicos.
Cuiabá entre as cestas mais caras do Brasil
O elevado custo da alimentação em Mato Grosso não é um fenômeno isolado desta primeira semana de setembro.
Na última comparação nacional disponível do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), referente a julho, Cuiabá aparecia com a segunda cesta básica mais cara entre as 27 capitais brasileiras.
Naquele mês, a cesta cuiabana custava R$ 881,27, ficando atrás apenas de São Paulo, onde o valor chegava a R$ 915,01. Florianópolis aparecia na terceira posição, com R$ 860,73, seguida pelo Rio de Janeiro, com R$ 855,37.
Quando calculada sobre o salário mínimo líquido, já descontada a contribuição previdenciária utilizada na metodologia do Dieese, a cesta de Cuiabá comprometia 58,77% da renda do trabalhador em julho.
Para conseguir comprar somente os alimentos considerados essenciais, eram necessárias aproximadamente 119 horas e 36 minutos de trabalho no mês.
Os números ajudam a demonstrar uma realidade sentida diariamente nos supermercados: apesar dos reajustes nominais dos salários, o preço dos alimentos continua reduzindo a capacidade das famílias de direcionar renda para outras necessidades.
Tomate dispara quase 30% em uma semana
A elevação registrada no início de setembro foi puxada principalmente pelos produtos hortifrutigranjeiros.
O tomate subiu 29,19% em apenas uma semana, alcançando preço médio de R$ 9,01 o quilo. Segundo o IPF-MT, chuvas registradas em regiões produtoras prejudicaram a colheita e a qualidade dos frutos, reduzindo a oferta disponível.
A batata também apresentou forte aumento, de 10,04%, chegando ao preço médio de R$ 5,55 o quilo.
Neste caso, as condições climáticas também afetaram o cronograma das colheitas e contribuíram para diminuir a oferta no mercado.
O comportamento demonstra como produtos agrícolas podem sofrer fortes oscilações em períodos relativamente curtos. Alterações climáticas, disponibilidade da produção, transporte e qualidade das safras acabam chegando rapidamente ao consumidor.
Na direção oposta, o café apresentou redução de 3,55%, com preço médio de R$ 27,62 para o pacote de 500 gramas.
Produção forte não significa alimento barato
A situação provoca um paradoxo especialmente significativo em Mato Grosso.
O estado está entre os maiores produtores brasileiros de soja, milho, algodão e proteína animal e possui uma das cadeias agroindustriais mais importantes do país. Ainda assim, o consumidor mato-grossense enfrenta uma das cestas básicas mais caras entre as capitais.
Isso ocorre porque o preço pago no supermercado não depende exclusivamente da quantidade de alimentos produzida dentro do estado. Custos de transporte, armazenamento, industrialização, energia, mão de obra, embalagens, distribuição, margens comerciais, impostos e as próprias condições nacionais de oferta e demanda participam da formação do preço final.
Além disso, grande parte da produção agrícola de Mato Grosso está direcionada a commodities e cadeias específicas, o que significa que ser um dos maiores produtores agropecuários brasileiros não necessariamente garante preços menores para todos os produtos encontrados diariamente na mesa da população.
Brasileiro trabalha cada vez mais para manter a alimentação
O problema ultrapassa as fronteiras de Mato Grosso.
Segundo o Dieese, em julho de 2026 um trabalhador remunerado pelo salário mínimo comprometia, em média, 49,34% do salário líquido para adquirir a cesta básica nas 27 capitais pesquisadas. O tempo médio de trabalho necessário para comprar os produtos essenciais era de 100 horas e 24 minutos.
O instituto também calcula mensalmente qual deveria ser o salário mínimo capaz de atender às necessidades previstas constitucionalmente para uma família de quatro pessoas, incluindo alimentação, moradia, saúde, educação, transporte, vestuário, higiene, lazer e previdência.
Em julho, enquanto o salário mínimo oficial era de R$ 1.621, o Dieese estimava que o chamado salário mínimo necessário deveria chegar a R$ 7.687,01, equivalente a 4,74 vezes o piso nacional.
A diferença entre os dois valores dimensiona o desafio do poder aquisitivo no Brasil.
Para as famílias de menor renda, qualquer aumento no supermercado possui impacto proporcionalmente maior porque alimentação, moradia e transporte representam despesas que dificilmente podem ser eliminadas do orçamento.
Inflação que aparece diretamente no prato
Outro fator preocupante é que a elevação da cesta básica ocorre justamente em produtos de consumo cotidiano.
Quando tomate, batata, carne, leite, arroz, café e outros itens essenciais sobem, existe pouca margem para substituição, principalmente entre famílias de renda mais baixa.
O consumidor acaba adotando estratégias como pesquisar preços em diferentes supermercados, trocar marcas, substituir determinados alimentos, reduzir quantidades ou abandonar produtos considerados menos essenciais.
Por isso, embora índices gerais de inflação sejam importantes para medir o comportamento da economia, é dentro do supermercado que grande parte da população percebe de maneira mais imediata se seu poder de compra aumentou ou diminuiu.
Em Mato Grosso, os números de setembro reforçam esse alerta: uma cesta de R$ 859,34 em um país com salário mínimo de R$ 1.621 mostra que o desafio econômico não está apenas em gerar renda, mas em garantir que ela seja suficiente para acompanhar o custo das necessidades mais básicas.
E quando mais da metade de um salário mínimo pode desaparecer apenas para garantir a alimentação essencial, sobra cada vez menos espaço no orçamento para todas as outras despesas indispensáveis à vida de uma família brasileira.
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