Economia
Cesta básica consome mais da metade do salário mínimo e pressiona poder de compra em Mato Grosso
Em Cuiabá, conjunto de alimentos chega a R$ 859,34 e custa 7,88% mais que há um ano; alta expõe perda do poder aquisitivo das famílias brasileiras
Colocar comida na mesa continua sendo um dos principais desafios do orçamento das famílias brasileiras. Em Mato Grosso, a situação chama ainda mais atenção: mesmo em um estado reconhecido nacionalmente como uma potência na produção agropecuária, a capital Cuiabá mantém um dos custos de alimentação básica mais elevados do país.
Na primeira semana de setembro, o custo médio da cesta básica cuiabana chegou a R$ 859,34, após alta de 2,17% em apenas uma semana, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa e Análise da Fecomércio Mato Grosso (IPF-MT).
Na comparação com o mesmo período de 2025, quando a cesta custava R$ 796,58, o aumento chega a 7,88%.
O impacto sobre o poder aquisitivo é expressivo. Considerando o salário mínimo nacional de R$ 1.621 em 2026, o valor atual da cesta em Cuiabá equivale a aproximadamente 53% de todo o salário mínimo bruto de um trabalhador. Isso significa que, antes mesmo de pagar aluguel, energia elétrica, água, transporte, medicamentos, educação e outras despesas essenciais, mais da metade do piso nacional pode ser absorvida apenas pelos alimentos básicos.
Cuiabá entre as cestas mais caras do Brasil
O elevado custo da alimentação em Mato Grosso não é um fenômeno isolado desta primeira semana de setembro.
Na última comparação nacional disponível do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), referente a julho, Cuiabá aparecia com a segunda cesta básica mais cara entre as 27 capitais brasileiras.
Naquele mês, a cesta cuiabana custava R$ 881,27, ficando atrás apenas de São Paulo, onde o valor chegava a R$ 915,01. Florianópolis aparecia na terceira posição, com R$ 860,73, seguida pelo Rio de Janeiro, com R$ 855,37.
Quando calculada sobre o salário mínimo líquido, já descontada a contribuição previdenciária utilizada na metodologia do Dieese, a cesta de Cuiabá comprometia 58,77% da renda do trabalhador em julho.
Para conseguir comprar somente os alimentos considerados essenciais, eram necessárias aproximadamente 119 horas e 36 minutos de trabalho no mês.
Os números ajudam a demonstrar uma realidade sentida diariamente nos supermercados: apesar dos reajustes nominais dos salários, o preço dos alimentos continua reduzindo a capacidade das famílias de direcionar renda para outras necessidades.
Tomate dispara quase 30% em uma semana
A elevação registrada no início de setembro foi puxada principalmente pelos produtos hortifrutigranjeiros.
O tomate subiu 29,19% em apenas uma semana, alcançando preço médio de R$ 9,01 o quilo. Segundo o IPF-MT, chuvas registradas em regiões produtoras prejudicaram a colheita e a qualidade dos frutos, reduzindo a oferta disponível.
A batata também apresentou forte aumento, de 10,04%, chegando ao preço médio de R$ 5,55 o quilo.
Neste caso, as condições climáticas também afetaram o cronograma das colheitas e contribuíram para diminuir a oferta no mercado.
O comportamento demonstra como produtos agrícolas podem sofrer fortes oscilações em períodos relativamente curtos. Alterações climáticas, disponibilidade da produção, transporte e qualidade das safras acabam chegando rapidamente ao consumidor.
Na direção oposta, o café apresentou redução de 3,55%, com preço médio de R$ 27,62 para o pacote de 500 gramas.
Produção forte não significa alimento barato
A situação provoca um paradoxo especialmente significativo em Mato Grosso.
O estado está entre os maiores produtores brasileiros de soja, milho, algodão e proteína animal e possui uma das cadeias agroindustriais mais importantes do país. Ainda assim, o consumidor mato-grossense enfrenta uma das cestas básicas mais caras entre as capitais.
Isso ocorre porque o preço pago no supermercado não depende exclusivamente da quantidade de alimentos produzida dentro do estado. Custos de transporte, armazenamento, industrialização, energia, mão de obra, embalagens, distribuição, margens comerciais, impostos e as próprias condições nacionais de oferta e demanda participam da formação do preço final.
Além disso, grande parte da produção agrícola de Mato Grosso está direcionada a commodities e cadeias específicas, o que significa que ser um dos maiores produtores agropecuários brasileiros não necessariamente garante preços menores para todos os produtos encontrados diariamente na mesa da população.
Brasileiro trabalha cada vez mais para manter a alimentação
O problema ultrapassa as fronteiras de Mato Grosso.
Segundo o Dieese, em julho de 2026 um trabalhador remunerado pelo salário mínimo comprometia, em média, 49,34% do salário líquido para adquirir a cesta básica nas 27 capitais pesquisadas. O tempo médio de trabalho necessário para comprar os produtos essenciais era de 100 horas e 24 minutos.
O instituto também calcula mensalmente qual deveria ser o salário mínimo capaz de atender às necessidades previstas constitucionalmente para uma família de quatro pessoas, incluindo alimentação, moradia, saúde, educação, transporte, vestuário, higiene, lazer e previdência.
Em julho, enquanto o salário mínimo oficial era de R$ 1.621, o Dieese estimava que o chamado salário mínimo necessário deveria chegar a R$ 7.687,01, equivalente a 4,74 vezes o piso nacional.
A diferença entre os dois valores dimensiona o desafio do poder aquisitivo no Brasil.
Para as famílias de menor renda, qualquer aumento no supermercado possui impacto proporcionalmente maior porque alimentação, moradia e transporte representam despesas que dificilmente podem ser eliminadas do orçamento.
Inflação que aparece diretamente no prato
Outro fator preocupante é que a elevação da cesta básica ocorre justamente em produtos de consumo cotidiano.
Quando tomate, batata, carne, leite, arroz, café e outros itens essenciais sobem, existe pouca margem para substituição, principalmente entre famílias de renda mais baixa.
O consumidor acaba adotando estratégias como pesquisar preços em diferentes supermercados, trocar marcas, substituir determinados alimentos, reduzir quantidades ou abandonar produtos considerados menos essenciais.
Por isso, embora índices gerais de inflação sejam importantes para medir o comportamento da economia, é dentro do supermercado que grande parte da população percebe de maneira mais imediata se seu poder de compra aumentou ou diminuiu.
Em Mato Grosso, os números de setembro reforçam esse alerta: uma cesta de R$ 859,34 em um país com salário mínimo de R$ 1.621 mostra que o desafio econômico não está apenas em gerar renda, mas em garantir que ela seja suficiente para acompanhar o custo das necessidades mais básicas.
E quando mais da metade de um salário mínimo pode desaparecer apenas para garantir a alimentação essencial, sobra cada vez menos espaço no orçamento para todas as outras despesas indispensáveis à vida de uma família brasileira.
Brasil
INSS anuncia fim da fila, mas Previdência exige mais de R$ 1 trilhão por ano para pagar benefícios
Governo afirma ter eliminado estoque de novos requerimentos após queda registrada desde fevereiro; avanço administrativo ocorre em um sistema que deverá gastar cerca de R$ 1,1 trilhão com benefícios em 2026 e apresenta déficit superior a R$ 300 bilhões
O governo federal anunciou nesta quinta-feira (3) que conseguiu eliminar a chamada fila de atendimentos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), após meses de redução no estoque de pedidos acumulados.
O anúncio foi feito pelo ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, no Palácio do Planalto, durante evento com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo o Ministério da Previdência, o número de requerimentos acumulados caiu gradualmente ao longo de 2026. Em fevereiro, aproximadamente 3,12 milhões de pessoas aguardavam análise, enquanto outros 1,17 milhão de novos pedidos foram apresentados apenas naquele mês.
Em julho, o estoque havia recuado para aproximadamente 1,547 milhão de requerimentos.
Já em agosto, segundo o governo, a capacidade de processamento passou a superar o estoque acumulado, levando o ministério a considerar tecnicamente encerrada a situação de fila e passando a tratar os requerimentos como fluxo normal de atendimento.
INSS recebe cerca de 43 mil pedidos por dia
O tamanho da estrutura ajuda a explicar o desafio.
Atualmente, o INSS recebe aproximadamente 1,3 milhão de novos requerimentos por mês, equivalente a cerca de 43 mil solicitações por dia.
São pedidos de aposentadorias, pensões, auxílio por incapacidade temporária, salário-maternidade, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e diversos outros benefícios administrados pelo instituto.
Segundo Wolney Queiroz, a redução do estoque foi obtida por uma combinação de medidas administrativas.
Entre elas estão a contratação de novos servidores por concurso público, ampliação da telemedicina, realização de mutirões e adoção da perícia médica documental.
O governo afirma que 865 agências passaram a operar com recursos de telemedicina.
Também foram adotados programas de produtividade com pagamento de bônus aos servidores que executam tarefas além das metas regulares.
De acordo com o ministro, esse modelo teria proporcionado aproximadamente 2 milhões de atendimentos adicionais somente em 2026.
Fila acabou, mas 224 mil ainda esperam além de 45 dias
A declaração de que a fila foi zerada exige uma ressalva importante.
O próprio Ministério da Previdência reconhece que ainda existem aproximadamente 224 mil pessoas esperando há mais de 45 dias por uma decisão.
O prazo de referência legal informado pelo governo é de 45 dias.
Segundo o ministério, atualmente o tempo médio geral de análise está em aproximadamente 34 dias.
Os casos que ultrapassam os 45 dias envolveriam principalmente situações consideradas mais complexas, incluindo alguns pedidos de BPC e aposentadoria.
Portanto, a expressão “fila zerada” utilizada pelo governo não significa que todos os pedidos existentes no país foram concluídos.
Significa que, segundo a metodologia adotada pela Previdência, a capacidade atual de processamento conseguiu absorver o fluxo de novos requerimentos sem continuar ampliando o estoque acumulado.
O desafio financeiro é muito maior do que o administrativo
A redução do tempo de análise representa um avanço operacional importante para quem depende da concessão de aposentadorias, pensões e auxílios.
Mas existe outra dimensão do INSS que merece atenção: o enorme volume de recursos públicos necessário para manter o sistema previdenciário brasileiro funcionando.
Para 2026, a projeção oficial aponta para aproximadamente R$ 1,128 trilhão em despesas totais com benefícios do Regime Geral de Previdência Social (RGPS).
Desse montante, cerca de:
- R$ 1,068 trilhão corresponde aos benefícios previdenciários normais;
- R$ 53,9 bilhões são destinados a decisões judiciais;
- aproximadamente R$ 6,7 bilhões correspondem à compensação financeira entre o RGPS e regimes próprios de Previdência.
Isso significa uma despesa média próxima de R$ 94 bilhões por mês.
Em termos aproximados, são mais de R$ 3 bilhões por dia movimentados para cumprir as obrigações previdenciárias do sistema.
Arrecadação não cobre todo o gasto
Outro ponto relevante é que as contribuições previdenciárias arrecadadas não são suficientes para cobrir integralmente todas essas despesas.
A previsão oficial para 2026 indica arrecadação líquida próxima de R$ 793,2 bilhões para o Regime Geral.
Diante de uma despesa projetada de R$ 1,128 trilhão, a diferença estimada é de aproximadamente:
R$ 335,4 bilhões.
Esse é o déficit projetado para o Regime Geral de Previdência Social em 2026.
Segundo os documentos orçamentários do governo, o valor corresponde aproximadamente a 2,43% do Produto Interno Bruto brasileiro.
Esse déficit precisa ser coberto pelo conjunto das receitas do governo federal.
Ou seja, além das contribuições realizadas por trabalhadores e empregadores, recursos provenientes de outras receitas públicas são necessários para garantir o pagamento integral dos benefícios.
Previdência é uma das maiores despesas da União
Os números ajudam a demonstrar a dimensão econômica do INSS.
Em 2025, por exemplo, a execução orçamentária somente dos benefícios previdenciários chegou a aproximadamente R$ 907,9 bilhões.
Desse total, cerca de R$ 499,2 bilhões foram destinados às aposentadorias urbanas do Regime Geral, correspondendo a mais da metade da despesa previdenciária daquele exercício.
Para 2026, a despesa já supera a marca de R$ 1 trilhão.
Por isso, qualquer alteração no número de benefícios concedidos, no valor do salário mínimo, na inflação ou nas regras previdenciárias produz efeitos de bilhões de reais sobre o Orçamento da União.
Mais rapidez também significa impacto mais rápido no orçamento
Existe ainda uma relação direta entre eficiência administrativa e execução financeira.
Quando o INSS analisa mais rapidamente um benefício que efetivamente é devido, o cidadão passa a receber mais cedo.
Isso é positivo do ponto de vista social e administrativo.
Ao mesmo tempo, a maior velocidade de concessão também antecipa a entrada dessas despesas na folha previdenciária.
Isso não significa que reduzir a fila “aumente artificialmente” o gasto.
O benefício já era um direito do segurado caso os requisitos estivessem preenchidos.
A diferença é que um sistema mais eficiente reconhece e começa a pagar essa obrigação em menor prazo.
Demografia pressiona sistema no longo prazo
O desafio previdenciário não termina em 2026.
O próprio Ministério da Previdência realiza projeções financeiras e atuariais do Regime Geral até 2100, incorporando fatores como envelhecimento da população, evolução do mercado de trabalho, número de contribuintes e quantidade de novos benefícios concedidos.
O envelhecimento populacional é um dos elementos centrais dessa discussão.
À medida que aumenta a proporção de idosos em relação à população economicamente ativa, cresce o número de pessoas recebendo aposentadorias enquanto diminui proporcionalmente a base de trabalhadores que financia o sistema por meio das contribuições.
Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil e representa um dos principais desafios fiscais enfrentados por sistemas previdenciários em diversos países.
Governo também tenta reduzir gastos indevidos
A sustentabilidade financeira passa ainda pela revisão de benefícios e pelo combate a pagamentos irregulares.
O governo vem adotando programas de revisão de despesas previdenciárias, assistenciais e trabalhistas administradas pelo INSS.
Essas ações buscam evitar fraudes, pagamentos duplicados ou manutenção de benefícios quando os requisitos legais deixaram de existir.
O acompanhamento dessas despesas também interfere diretamente nas projeções fiscais do governo.
Em julho, por exemplo, a revisão das projeções reduziu em aproximadamente R$ 3,2 bilhões a estimativa de gastos com benefícios previdenciários em 2026 e em outros R$ 3,2 bilhões a previsão para BPC e Loas.
Avanço administrativo não elimina desafio fiscal
O anúncio do fim da fila representa uma melhora importante no atendimento, principalmente para pessoas que muitas vezes dependem da aposentadoria, pensão ou auxílio para garantir renda básica.
Ao mesmo tempo, os números mostram que o debate sobre Previdência vai muito além da velocidade das perícias e da análise dos processos.
O Brasil precisa administrar simultaneamente dois grandes desafios.
O primeiro é prestar um serviço eficiente, evitando que cidadãos esperem meses ou anos para ter um benefício analisado.
O segundo é garantir recursos suficientes para financiar um sistema que movimenta mais de R$ 1 trilhão por ano.
Em 2026, a diferença projetada entre arrecadação e despesas do Regime Geral supera R$ 335 bilhões.
Isso mostra a dimensão do problema.
Zerar a fila administrativa é uma conquista de gestão. Manter o sistema previdenciário financeiramente sustentável, porém, continua sendo um dos maiores desafios econômicos e fiscais do Brasil.
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