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Programa Empreendedor Rural passa por reformulação com ênfase no envolvimento familiar

As restrições causadas pela pandemia do novo coronavírus impediram que em 2020 e em 2021 fosse realizado o Encontro Estadual de Líderes e Empreendedores Rurais – o tradicional evento anual que marca o encerramento do Programa Empreendedor Rural (PER) e reúne milhares de produtores de todas as regiões do Paraná. Apesar de a festa ter sido suspensa temporariamente, o PER manteve algumas atividades. O programa chega a sua 19ª edição em 2022 reformulado e a todo vapor, de cara nova. Antes, de forma piloto, levou o novo formato a salas de aula, com resultados animadores – e com todos os cuidados sanitários.

A reformulação manteve o objetivo principal do programa: fazer com que o aluno amplie a visão sobre a propriedade e o negócio, tornando-se um empresário-empreendedor. Em outras palavras, ajudar o produtor a transformar sua propriedade em um negócio. Para isso, ao longo do PER, o participante trilha um percurso de aprendizagem, desenvolvendo um projeto que possa ser implantado na prática, de olho na realidade que encontra no campo. A grande novidade é que o programa agora também foca na família do produtor, que passa a ser envolvida desde o início. Neste contexto, a iniciativa se desenvolve a partir do conceito “empresa-família”, trabalhando três dimensões: família, negócio e patrimônio.

“O PER convida o participante a pensar não só um projeto para a propriedade em si, mas a promover um resgate da família. A ideia é que o desenvolvimento da propriedade seja estabelecido em conjunto com os familiares, não algo imposto pelo participante”, explica a técnica do Departamento Técnico (Detec) do Sistema FAEP/SENAR-PR e responsável do PER, Vanessa Reinhart.

Iniciada em 2019, a atualização do PER partiu de avaliações de especialistas, instrutores e participantes de todo o país. Eles identificaram que a principal causa que levava projetos de alunos a não serem implantados estava relacionada a dificuldades no relacionamento entre os alunos e seus familiares. O novo modelo foi testado já em 2019, com dez turmas-piloto. No ano passado, o SENAR-PR selecionou, via edital, 21 novos instrutores, que foram treinados a atuar no programa já remodelado. Em 2021, seguindo todos os protocolos sanitários, 408 alunos, divididos em 38 turmas, frequentaram o PER.

“Foram turmas com número reduzido de alunos, já com a nova formatação. A avaliação dos participantes foi positiva. Os trabalhos geraram um espaço de diálogo, que permitiu traçar objetivos em comum”, diz Vanessa.

Construindo consenso

O agricultor Benedito Cláudio dos Santos, de 39 anos, foi um dos alunos que frequentou o PER em 2021. Localizada em Altamira do Paraná, região Centro-Sul, a propriedade da família dele é trabalhada por três gerações diferentes. Por um lado, isso propicia a diversificação das atividades, mas, por outro, acaba dificultando o estabelecimento de objetivos comuns. Com a percepção de quem teve acesso aos dois modelos do PER – ele também havia concluído o programa em 2015 –, Santos aprovou o foco na família. Para ele, a construção de consenso é determinante para viabilizar o negócio.

“Na outra versão, o foco estava na participação do empreendedor. A nova abordagem trouxe a família para a discussão. Eu achei muito interessante”, ressalta Santos. “Aqui, somos três gerações. Então, há muitas diferenças, cada um com sua visão. Conciliar os objetivos de todos é um desafio. O PER nos ajudou nisso”, avalia.

Ao longo de 2021, Santos desenvolveu um projeto voltado à produção de orgânicos – principalmente tomate – na propriedade da família. O agricultor está com o cultivo protegido de 600 pés, conduzido de forma experimental. Enquanto isso, o produtor analisa a viabilidade financeira do negócio, de olho na venda para a merenda escolar e a mercados. Formado em Química, Santos planeja apostar na agricultura sustentável como forma de ampliar a rentabilidade da propriedade – em que o pai cultiva uva e a sobrinha atua com gado de leite e olericultura.

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Paralelamente, ele mantém cultivos experimentais de plantas medicinais – como melaleuca, lippia alba (um tipo de cidreira) e capim-santo –, visando a extração e comercialização de óleos essenciais. A produção foi tema de seu projeto desenvolvido no PER de 2015. A intenção de Santos é, ao longo dos próximos anos, conciliar a produção de orgânicos com os óleos essenciais, tornando as atividades sua principal fonte de renda. “Nos dois casos, eu estou fazendo estudos de escala, para ver a viabilidade financeira”, observa o empreendedor rural. “O PER ensinou tudo: a elaborar projetos, fazer diagnósticos e avaliações, estudo de viabilidade e de capitais e ter uma visão profissional, mesmo, sobre a propriedade”, avalia.

Também em Altamira no Paraná, o produtor rural Fábio Henrique Amaral de Melo, de 25 anos, foi outro participante que concluiu o PER em 2021. Até cinco anos atrás, ele vivia em Santo André, São Paulo, onde nasceu e levava uma vida completamente urbana. Lá, começou a trabalhar aos 12 anos, pegando bolinhas em um clube de tênis e, posteriormente, foi funcionário de uma rede de fast food. Quando se mudou ao Paraná é que começou a relação com o campo, estreitada pelas capacitações do SENAR-PR.

Fábio Amaral de Melo concluiu o PER em 2021

“Eu comecei a fazer os cursos e falavam muito bem do PER. E foi uma oportunidade incrível. Eu já via a propriedade como um negócio, mas não sabia bem como administrar isso. Foi muito importante a questão do planejamento, das avaliações”, destaca.

O sítio – que pertencia ao avô materno de Melo – foi dividido entre duas tias, um tio e a mãe do rapaz. Na parte que ele administra com os pais, a família mantém seis cabeças de vaca e um boi voltados à recria. Além disso, cultivam uma pequena plantação de cana e arrendam uma pequena área. O projeto de Melo visa otimizar a criação de gado, integrada à produção agroflorestal – com hortaliças, frutas e madeiras nobres. Ele também planeja apostar no cultivo de uvas, mirando-se no exemplo de uma das tias. O PER foi determinante para a execução do planejamento e a adoção dessa visão mais abrangente e profissional.

“O nosso sítio tem uma particularidade: ele é comprido. Mas é como o instrutor disse: não existe área que seja inviável de se trabalhar. A questão é ter planejamento e organização”, reforça. “Eu sentei com meu pai, mostrei os números. Compensa pegarmos um financiamento e colocarmos gado próprio. Seria bem mais vantajoso do que arrendar. Devagar a gente vai explicando, vai mostrando. O meu projeto é economicamente viável, mas precisamos levantar o financiamento para dar certo”, diz o produtor, que aponta o PER como determinante nesse processo de construção de consenso com os familiares.

Um sonho com gostinho de história

Mariana Martins Marcondes, da Doce Legado

Há um ano e meio, Mariana Martins Marcondes, de 34 anos, passou a apostar na produção de doces artesanais como forma de permanecer no campo. Mas o negócio vai além dos sabores que saem da sua cozinha. Filha de produtores rurais em Guarapuava, no Centro-Sul, a empreendedora uniu a gastronomia ao resgate histórico da trajetória da própria família, em um modelo carregado de valor afetivo. Afinal, as receitas estão com a família há décadas, passando de geração para geração. Isso explica o nome da marca criada por Mariana: Doce Legado. E a realização desse sonho passou pelos saberes difundidos pelo PER.

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A família está na região desde 1818, quando o trisavô de Mariana se fixou naquelas terras, dedicando-se à produção agropecuária, criando porcos e galinhas e mantendo uma pequena lavoura, quase de forma rudimentar – que é como a atividade se dava na época. “Minha família está por aqui desde o descobrimento dos Campos Gerais. Era aquela coisa, assim, de troca de alimentos ou de pequenos comércios”, diz Mariana.

A empreendedora nasceu na propriedade e, aos seis anos, mudou-se para a cidade. Os pais deram continuidade à vocação rural dos antepassados, criando vacas das raças Jersey e holandesa, chegando a produzir queijo por um período. Mariana estava por dentro do que se passava na propriedade, mas não participava do negócio. Cursou Agronomia e fez mestrado, mas, ainda assim, não estava ligada à gestão dos negócios familiares.

Em 2017, ao começar doutorado – em que pesquisou melhoramento genético na cultura do milho –, Mariana voltou a morar na propriedade, desenvolvendo o projeto prático para seus estudos. Entre livros e pesquisas, a jovem se reconectou com a tradição familiar dos doces caseiros. Naquele inverno, como havia uma produção considerável de abóbora gila, ela quis aprender a fazer as receitas que sempre via as tias e mãe preparando. O processo era o mesmo de antigamente: fogão a lenha, tacho e colher de pau.

“É algo que dá trabalho, mas eu gostei de fazer aquilo. Era uma reconexão com a história da minha família”, conta Mariana, que também auxilia no controle pecuário dos animais da fazenda. “Como eu fazia muitos doces, comecei a vender para conhecidos e amigos. Foi aí que surgiu a ideia”, acrescenta.

Mariana, no entanto, não entendia de gestão, de análise de mercado, nada disso. Foi então que se matriculou no PER, ao longo do qual desenvolveu um projeto de implantação de uma agroindústria voltada à produção de doces caseiros. Viu que havia viabilidade, embora precisasse de alguns ajustes. Ela percebeu, por exemplo, que não poderia continuar usando a cozinha da casa. A saída foi adaptar um espaço para si, no salão de festas da propriedade. É de lá que saem, hoje, os produtos da Doce Legado.

“Para a propriedade em si, a renda gerada pelo negócio não representaria muita coisa. Mas era uma renda que possibilitaria que eu permanecesse na propriedade. É um negócio que agrega valor aos produtos e me gera uma fonte de renda”, diz a empreendedora. “A produção ainda é pequena, mas os próximos passos são ganhar em escala e passar a vender para mercados e padarias”, afirma.

Mariana, no entanto, ressalta que é preciso planejamento, dedicação e manter os pés no chão, para concretizar as ideias de uma forma racional e profissional. “O PER foi essencial para eu ter uma visão geral do negócio e saber empreender. Quando sai daquilo de fazer doce para a família, vira outra coisa: tem escala, adaptações, testes e padrões que precisam ser feitos para a comercialização”, aponta. “Mas vale a pena. O ‘Doce Legado’ simboliza as mulheres fortes da minha família, que sempre tiveram um poder na propriedade”, define.

Fonte: CNA Brasil

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União Europeia oficializa veto à carne brasileira a partir de setembro

A União Europeia (EU) oficializou sua decisão de proibir a importação de carnes, tripas, peixe e mel produzidos no Brasil. O veto deve entrar em vigor a partir do próximo dia 3 de setembro.

Anunciada há quase um mês, poucos dias após a entrada em vigor provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, a decisão de excluir o Brasil da lista de países autorizados a exportar esses produtos para os países do bloco europeu foi confirmada em um documento oficial publicado no Diário Oficial da UE nesta sexta-feira (5).

Segundo a Comissão Europeia, o Brasil não conseguiu comprovar que seus produtores atendem às algumas das exigências sanitárias europeias, especialmente que não utilizam, ao longo de toda a cadeia produtiva, medicamentos antimicrobianos para tratar e prevenir infecções em animais.

Em abril deste ano, o governo brasileiro proibiu parte dos antimicrobianos comprovadamente usados para estimular o crescimento e aumentar a produtividade animal, mas a União Europeia avaliou que ainda faltam garantias adicionais.

As regras sobre o uso de antimicrobianos fazem parte da política europeia de segurança alimentar e saúde pública conhecida como One Health, criada para combater o uso excessivo de antibióticos no mundo. Entre os produtos restritos pelos europeus estão substâncias como virginiamicina, avoparcina, tilosina, espiramicina, avilamicina e bacitracina.

A União Europeia é um dos principais mercados para as proteínas animais brasileiras. No caso da carne bovina, o bloco europeu aparece entre os maiores destinos das exportações brasileiras em valor.

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A cautela europeia não significa necessariamente que a carne brasileira esteja contaminada por medicamentos. O principal ponto da decisão europeia é regulatório e envolve rastreabilidade sanitária, certificação e comprovação documental sobre o uso dos medicamentos.

Para voltar à lista dos países autorizados a vender os produtos vetados, o Brasil precisará comprovar que cumpre integralmente as regras europeias durante todo o ciclo de vida dos animais exportados. Para isso, o país pode ampliar ainda mais as restrições legais aos medicamentos ou criar mecanismos mais rígidos de rastreabilidade para provar que os produtos exportados não utilizam as substâncias proibidas na Europa.

A segunda alternativa é considerada mais complexa porque exige monitoramento detalhado da cadeia produtiva, certificações sanitárias adicionais e custos maiores para produtores e frigoríficos.

Abiec
Consultada pela reportagem, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) manteve o posicionamento divulgado no mês passado, quando a Comissão Europeia anunciou a decisão de proibir a compra dos produtos brasileiros.

Segundo a entidade, o Brasil conta com um “dos sistemas de inspeção e defesa agropecuária mais robustos do mundo” e a carne bovina brasileira atende aos requisitos sanitários e regulatórios de mais de 170 países, incluindo os principais mercados internacionais, cumprindo “rígidos controles oficiais, sistemas de rastreabilidade e protocolos reconhecidos globalmente”.

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Ainda de acordo com a associação, o setor privado vem trabalhando em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) na elaboração de protocolos voltados ao atendimento das novas exigências europeias, além de manter diálogo técnico e colaboração com as autoridades competentes sobre o tema.

Qualidade
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) informou que está acompanhando a formalização da decisão da União Europeia e confiante de que as autoridades brasileiras vão demonstrar, tecnicamente, que o país possui um dos mais robustos sistemas de controle sanitário mundial, capaz de garantir “elevados padrões de qualidade, rastreabilidade, biosseguridade e segurança dos alimentos”.

Em nota, a ABPA enfatizou que o veto à importação dos produtos brasileiros “não decorre de qualquer questionamento sanitário, não conformidade ou problema identificado em relação ao uso de antimicrobianos na produção animal brasileira”, mas sim ao reconhecimento europeu dos “mecanismos oficiais de fiscalização e controle adotados pelo Brasil”.

A entidade também reconheceu a legitimidade das iniciativas voltadas à proteção da saúde pública, da sanidade animal e da segurança dos alimentos, mas com ressalvas. Para a associação, é necessário que as normas sanitárias nacionais estejam “fundamentadas em critérios científicos, avaliações de risco reconhecidas internacionalmente, transparência regulatória e observância aos princípios estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde Animal, pelo Codex Alimentarius e pelos acordos multilaterais de comércio”.

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