Investigação
Farmacêutica investigada por procedimentos invasivos em Cuiabá pode responder por exercício ilegal da medicina

Caso envolvendo clínica de estética no Jardim Itália chama atenção para os limites legais de atuação dos profissionais da saúde e para possíveis consequências criminais, civis e administrativas
Uma fiscalização realizada em uma clínica de estética no bairro Jardim Itália, em Cuiabá, colocou em evidência uma discussão importante sobre os limites legais de atuação dos profissionais da área da saúde.
Segundo as informações divulgadas sobre o caso, uma farmacêutica passou a ser investigada por possível exercício ilegal da medicina, após fiscalização encontrar indícios da realização de procedimentos invasivos, entre eles aplicações com laser e uma cirurgia íntima conhecida como ninfoplastia.
O estabelecimento foi interditado e materiais, medicamentos e produtos utilizados nos atendimentos foram apreendidos.
Do ponto de vista jurídico, porém, o caso ainda precisa ser analisado com cautela. A existência de uma investigação não significa condenação. Caberá à Polícia Civil verificar quais procedimentos eram efetivamente realizados, se a profissional possuía habilitação para cada um deles e se houve extrapolação dos limites legais da atividade farmacêutica.
Exercício ilegal da medicina é crime
O principal enquadramento jurídico em análise está previsto no artigo 282 do Código Penal.
A legislação pune quem exerce profissão de médico, dentista ou farmacêutico sem autorização legal ou excedendo os limites permitidos pela própria profissão.
A pena prevista é de detenção de seis meses a dois anos, além de multa quando a atividade é praticada com finalidade de lucro.
Esse ponto é importante porque a lei não pune apenas quem se apresenta como médico sem possuir formação.
Também pode haver responsabilização quando um profissional legalmente habilitado em determinada área passa a executar atos que estejam fora dos limites permitidos para sua profissão.
Assim, uma pessoa pode estar regularmente inscrita em seu conselho profissional e, mesmo assim, responder criminalmente caso fique comprovado que realizou procedimento reservado legalmente a outra categoria.
Ninfoplastia é um dos pontos centrais
Entre os procedimentos investigados está a ninfoplastia, intervenção realizada na região íntima feminina.
Esse tipo de procedimento exige atenção especial porque envolve atuação invasiva, manipulação de tecido, possibilidade de sangramento, infecção, necessidade de anestesia e risco de intercorrências.
Por isso, a apuração deverá verificar se a profissional possuía autorização legal e técnica para realizar esse tipo de intervenção.
A análise não depende apenas do diploma ou da formação acadêmica. Também devem ser consideradas as regras profissionais, a habilitação individual, as normas sanitárias, o local onde o procedimento era realizado e as condições oferecidas aos pacientes.
Lesões podem ampliar responsabilização
A legislação penal também prevê consequências mais graves quando o exercício ilegal da profissão provoca dano ao paciente.
Caso uma conduta irregular resulte em lesão corporal grave ou gravíssima, podem surgir outros enquadramentos penais além do exercício ilegal da profissão.
Se houver morte e ficar comprovado o nexo entre a conduta praticada e o resultado, a responsabilização pode ser ainda mais severa.
No caso investigado em Cuiabá, contudo, não há informação pública, até o momento, de morte ou lesão grave diretamente relacionada aos procedimentos.
Essas hipóteses são importantes apenas para demonstrar que a responsabilidade criminal pode aumentar conforme o resultado causado.
Prescrição de medicamentos também deve ser analisada
Outro ponto identificado durante a fiscalização envolve medicamentos e produtos utilizados nos atendimentos.
A eventual prescrição por profissional farmacêutico exige análise técnica específica.
O farmacêutico possui atribuições clínicas e pode, dentro de determinadas regras, realizar prescrições e acompanhamentos relacionados à sua área de atuação.
O problema surge quando a prescrição está ligada a procedimentos ou medicamentos que ultrapassam os limites profissionais estabelecidos em lei ou nas normas dos conselhos competentes.
Por isso, será necessário verificar quais medicamentos foram encontrados, para que eram utilizados, quem os prescreveu e dentro de qual contexto clínico.
Falta de alvará pode gerar sanções administrativas
A clínica também teria apresentado problemas relacionados à regularização sanitária e à presença de responsável técnico.
Essas questões podem gerar consequências mesmo que a investigação criminal não resulte em condenação.
Estabelecimentos que realizam procedimentos de saúde e estética precisam seguir normas específicas de higiene, armazenamento de medicamentos, esterilização, atendimento aos pacientes e descarte de materiais.
A ausência de licenças ou autorizações pode resultar em interdição, multas e outras sanções administrativas.
Foi justamente uma das medidas adotadas no caso: o estabelecimento acabou interditado durante a fiscalização.
Descarte irregular de resíduos também preocupa
Outro aspecto observado foi o descarte de materiais potencialmente contaminados em lixo comum.
Resíduos provenientes de serviços de saúde possuem regras específicas de separação, acondicionamento, identificação e destinação.
Agulhas, cânulas, materiais perfurocortantes e outros itens potencialmente contaminados precisam ser descartados em recipientes apropriados e resistentes.
O descarte incorreto pode colocar em risco funcionários, pacientes, coletores de lixo e outras pessoas que eventualmente tenham contato com o material.
Dependendo da gravidade da situação, a irregularidade pode gerar sanções sanitárias e, em determinados casos, outras consequências jurídicas.
Prontuários são fundamentais
A fiscalização também apontou problemas relacionados à documentação dos atendimentos.
Os prontuários possuem enorme importância tanto para o paciente quanto para o profissional.
É por meio deles que ficam registrados procedimentos realizados, medicamentos utilizados, antecedentes clínicos, orientações, consentimentos e possíveis intercorrências.
Em eventual processo judicial, o prontuário pode se tornar uma das principais provas para demonstrar exatamente o que aconteceu durante o atendimento.
A ausência de registros adequados pode dificultar a reconstrução dos fatos e aumentar a exposição jurídica do profissional e do estabelecimento.
Responsabilidade pode ocorrer em três áreas
Um mesmo fato pode gerar consequências diferentes.
Na esfera criminal, poderá ser analisada a existência de exercício ilegal da medicina ou de outros delitos.
Na esfera administrativa, Vigilância Sanitária e conselho profissional podem instaurar procedimentos, aplicar multas ou outras penalidades.
Já na esfera civil, pacientes que comprovarem algum prejuízo poderão buscar indenização.
Dependendo do caso, podem ser discutidos danos materiais, morais e estéticos.
Cada uma dessas responsabilidades possui requisitos próprios e deve ser analisada separadamente.
Conselho profissional também pode atuar
Além da Polícia Civil e da Vigilância Sanitária, o Conselho Regional de Farmácia também pode analisar a conduta sob a ótica ética e profissional.
Caso sejam identificadas infrações às normas da profissão, poderá ser instaurado procedimento administrativo disciplinar.
Eventuais penalidades dependerão da apuração e deverão respeitar o contraditório e a ampla defesa da investigada.
Presunção de inocência deve ser respeitada
Apesar da gravidade das informações divulgadas, existe um princípio que precisa ser preservado: ninguém pode ser considerado culpado antes de decisão definitiva da Justiça.
Neste momento, o que existe é uma investigação.
A profissional tem direito à defesa e à apresentação de documentos, justificativas e provas.
A Polícia Civil, por sua vez, deverá demonstrar de forma técnica se houve de fato exercício ilegal da medicina ou qualquer outro crime.
É importante diferenciar suspeita, investigação e condenação.
Caso serve de alerta para profissionais e pacientes
O episódio também serve como alerta para todo o setor de estética.
Nos últimos anos, novos equipamentos, tratamentos e procedimentos ampliaram rapidamente o mercado.
Ao mesmo tempo, aumentaram os conflitos sobre os limites de atuação de médicos, farmacêuticos, biomédicos, enfermeiros, dentistas e outros profissionais.
Para quem atua no setor, o cuidado jurídico deve ser permanente.
Antes de oferecer um procedimento, é fundamental verificar se existe autorização profissional, habilitação técnica, licença sanitária e estrutura adequada.
Para os pacientes, também é importante buscar informações sobre a formação e o registro do profissional, além de observar as condições da clínica e os riscos envolvidos.
O caso de Cuiabá demonstra que a estética também está inserida na área da saúde e, por isso, não pode funcionar à margem das regras.
Quando um profissional ultrapassa os limites legais de sua profissão, o problema deixa de ser apenas uma discussão entre categorias e pode se transformar em uma questão criminal, administrativa, civil e de proteção à saúde pública.
Investigação
Mãe é presa suspeita de queimar filho de sete anos com colher

Segundo o Conselho Tutelar, menino teria sido agredido como forma de punição após desobedecer à babá. Criança de 2 anos que também vivia na casa foi levada para um abrigo junto com o irmão
Uma mulher foi presa na última quinta (3), suspeita de queimar o próprio filho, de 7 anos, com uma colher quente, em Cidade Ocidental, no Entorno do Distrito Federal. Segundo o Conselho Tutelar de Cidade Ocidental, a criança apresenta várias queimaduras e, conforme informações colhidas pelo órgão, já vinha sendo vítima de maus-tratos praticados pela mãe.
O caso chegou ao Conselho Tutelar por meio de uma denúncia anônima. A Polícia Militar foi até a casa da família e encontrou a criança ferida.
Como o nome da mulher não foi divulgado, o g1 não conseguiu localizar a defesa dela até a última atualização desta reportagem.
Segundo o Conselho Tutelar, a mãe foi informada de que o filho havia cometido uma “malcriação” enquanto estava na casa da cuidadora. Diante da informação, ela entrou no quarto onde a criança estava e passou a agredi-la fisicamente.
Em seguida, ainda de acordo com o órgão, a mulher saiu do quarto, aqueceu uma colher e retornou, usando o objeto quente para provocar queimaduras em diversas partes do corpo do filho.
Indícios de maus-tratos anteriores
O Conselho Tutelar informou ao g1 que, conforme as informações colhidas pelo órgão, o menino já vinha sendo vítima de maus-tratos praticados pela mãe.
Além do menino de 7 anos, uma criança de 2 anos, também filha da suspeita, morava na residência. Segundo apuração da TV Anhanguera, as duas crianças foram retiradas da casa e encaminhadas para acolhimento.
De acordo com o Conselho Tutelar, o menino está sob responsabilidade e acompanhamento do órgão e permanece em acolhimento e proteção até que a Vara da Infância e Juventude se manifeste e decida quais medidas serão adotadas.
A mulher foi presa pela Polícia Militar. O g1 procurou a Polícia Civil para obter mais informações sobre a prisão e a investigação e aguarda retorno.
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