Polêmica
Homens na montanha: movimento dos Legendários divide opiniões em Cuiabá

O que começou como um retiro espiritual nas montanhas da Guatemala transformou-se, em poucos anos, em um movimento de alcance nacional e presença crescente no debate público brasileiro. Criado em 2015, o Legendários encontrou em 2025 um de seus principais polos de expansão em Cuiabá, onde mais de 1.200 homens já participaram das imersões conhecidas como TOP (Track Outdoor Potential), realizadas em um local mantido sob absoluto sigilo, batizado de Pista Vale da Graça.
Enquanto os participantes enfrentam dias de esforço físico intenso em trilhas, escaladas, caminhadas e incursões em rios, as esposas permanecem em solo. Elas se reúnem no chamado “Chá das Ladies”, encontros de oração onde o pedido é praticamente unânime: que os homens retornem “restaurados”, emocional e espiritualmente.
Oficialmente descrita como uma experiência educativa e espiritual, a vivência é cercada por cláusulas de confidencialidade. Para participar, os homens assinam um termo de isenção de responsabilidade e pagam uma taxa que pode chegar a R$ 1,8 mil. Segundo a organização local, as vagas se esgotam em poucos minutos, impulsionadas pelo crescente interesse e pelos relatos de transformação pessoal.
Em Cuiabá, o movimento ganhou notoriedade a partir de testemunhos públicos de homens que afirmam ter mudado radicalmente de vida após a experiência. Um deles é o engenheiro civil Tiago de Arruda, de 47 anos, que participou do TOP em novembro de 2023, em um momento delicado de sua vida familiar.
“Eu estava separado da minha família. Durante um momento de oração, pedi a Deus a restituição do meu lar. Foi a primeira oração que fiz de verdade. No domingo seguinte, quando voltamos à igreja, minha esposa — que estava nos Estados Unidos — apareceu com nossos dois filhos. A gente voltou pela graça de Deus”, relatou em entrevista ao Olhar Conceito, em abril deste ano.
Desde então, Tiago tornou-se um dos porta-vozes do Legendários em Cuiabá e atua hoje como coordenador do Legado, braço do movimento voltado para pais e filhos. A expansão local reflete um crescimento nacional acelerado. A estimativa é de que o Brasil alcance cerca de 100 mil legendários até o fim de 2025.
A estrutura do movimento se repete em diferentes estados: homens sobem a montanha, recebem um número de identificação, vestem fardas laranjas durante a imersão e retornam com o compromisso de aplicar os ensinamentos na vida familiar, espiritual e social.
“Ensinar meus filhos a ter relacionamento com Deus é algo que eu não tive quando era pequeno. Passei muitos anos distante disso. Hoje, poder direcioná-los nesse caminho é uma bênção e uma honra”, afirma Tiago.
Redes sociais, famosos e críticas
A visibilidade do Legendários foi amplificada pelas redes sociais e pela adesão de figuras públicas. A repercussão nacional aumentou após a influenciadora Viih Tube revelar que o marido, o ex-BBB Eliezer, participou da experiência. Nomes como Gustavo Tubarão, Thiago Nigro, Neymar pai e Kaká Diniz também já foram associados ao movimento.
A popularização, no entanto, trouxe críticas. Comparações com seitas religiosas surgiram, principalmente devido ao sigilo extremo, à linguagem própria e à ideia de uma verdade espiritual central. Em resposta, a sede de Cuiabá chegou a publicar vídeos negando qualquer caráter sectário. Outro ponto sensível é a comercialização da fé, já que, além da taxa de inscrição, podem existir custos adicionais ao longo do processo.
As posições defendidas pelo movimento também geraram controvérsia, especialmente em relação à homossexualidade. Em relatos de participantes e lideranças locais, a orientação sexual é tratada como um desvio de comportamento, com base em interpretações bíblicas tradicionais. Um exemplo citado foi o chamado “TOP Barbeiros”, realizado em Sorocaba (SP), no qual alguns participantes teriam “renunciado à homossexualidade” após a experiência.
“São homens que estavam desviados. Alguns, ao voltarem da montanha, renunciaram à homossexualidade. É um movimento que realmente transforma os homens”, afirmou Tiago. Questionado diretamente, ele reforçou a visão do grupo: “Deus criou o homem e a mulher, cada um com sua função”.
Propósito e expansão em Mato Grosso
Apesar das críticas, os organizadores defendem que o Legendários alcança homens que dificilmente entrariam em uma igreja por iniciativa própria. O presidente do Legendários Cuiabá, Jules Ignácio, afirma que o caráter aventureiro funciona como porta de entrada, mas que o foco central é o encontro espiritual.
Ele próprio participou da experiência em Balneário Camboriú (SC) antes de liderar a criação da primeira pista em Mato Grosso, inaugurada em junho de 2023. Desde então, Cuiabá passou a enviar participantes para outras edições no país e a receber homens de diferentes regiões.
Empresários como Danilo Rondinelli, de 46 anos, relatam múltiplas participações, conversão religiosa e mudanças profundas na vida familiar. Para eles, o sigilo não é um mecanismo de controle, mas parte essencial da experiência — comparada a evitar “spoilers” de um processo considerado transformador.
“A ideia sempre foi trazer o movimento para Mato Grosso, mas precisávamos de homens que já tivessem passado pela experiência para abraçar essa causa”, explica Jules.
A primeira edição no Vale da Graça ocorreu em 23 de junho de 2023, quando os primeiros homens acamparam no local. Para Jules, trazer o Legendários a Cuiabá tornou-se um propósito de vida voltado à restauração das famílias.
“Acreditamos na palavra de Deus e na Bíblia. O homem é o alicerce da família e tem falhado com a sociedade, terceirizado a educação dos filhos e se acovardado diante dos problemas. O movimento nasceu para transformar os homens”, conclui.
Com informações do Olhar Conceito
Polêmica
“Senado não pode ficar passivo”: Max Russi se revolta com crise envolvendo Moraes e Vorcaro e cobra impeachment

Presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso afirma que ausência de resposta diante das revelações envolvendo ministro do STF pode “desmoralizar” o Senado e defende abertura formal de processo para apuração dos fatos
A crise que atingiu o Supremo Tribunal Federal após a divulgação de informações extraídas das investigações sobre o Banco Master provocou uma dura reação do presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), deputado Max Russi (Podemos). Diante das novas revelações envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, Russi afirmou que o Senado Federal não pode permanecer passivo e defendeu que os pedidos de impeachment contra o magistrado sejam analisados.
As declarações foram dadas nesta quarta-feira (2), justamente no momento em que Brasília enfrenta uma das mais delicadas crises institucionais recentes envolvendo a Suprema Corte.
“O Senado tem que agir. A gente não pode ficar passivo uma vida toda. Se não agir com o que está sendo exposto, e da forma que está sendo colocado, desmoraliza muito o Senado”, afirmou Max Russi.
A indignação do presidente da ALMT ocorre após a retirada do sigilo de relatório da Polícia Federal contendo dados obtidos a partir do celular de Daniel Vorcaro. O material revelou mensagens encaminhadas pelo ex-banqueiro a um contato identificado como sendo do ministro Alexandre de Moraes e levantou novos questionamentos sobre a relação mantida entre ambos.
As informações também trouxeram novamente ao centro das discussões o contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia ligado à família do ministro, em valores milionários. Os elementos revelados pela investigação, contudo, ainda são objeto de apuração e, até o momento, não representam comprovação definitiva da prática de crime por Moraes.
Mesmo assim, a repercussão foi suficiente para abrir uma crise dentro do próprio Supremo.
O presidente do STF, ministro Edson Fachin, reconheceu publicamente a gravidade da situação e afirmou que os indícios exigem encaminhamento institucional. Fachin informou que está analisando os fatos e que anunciará as medidas que considerar cabíveis, defendendo que a autoridade de um ministro da Suprema Corte não o coloca acima de deveres, limites e responsabilidades.
Nos bastidores, o episódio também abriu divergências dentro do tribunal sobre a própria condução da investigação. A Procuradoria-Geral da República questionou juridicamente atos adotados na apuração, enquanto o STF deverá decidir os próximos passos envolvendo eventual investigação sobre um de seus próprios integrantes.
“Tem que abrir o processo”
Para Max Russi, porém, independentemente das disputas jurídicas internas do Supremo, o Senado possui uma responsabilidade constitucional que não pode ser ignorada.
Na avaliação do presidente da Assembleia, cabe aos senadores receber os pedidos existentes, analisar os fatos e decidir formalmente se existem ou não elementos suficientes para o prosseguimento de um processo de impeachment.
“Tem que tomar as providências de impeachment, abrir o processo, porque se não fizer nada enfraquece muito e descredibiliza”, declarou.
Russi demonstrou preocupação especialmente com o impacto que uma eventual omissão poderá provocar sobre a imagem das instituições brasileiras.
Na visão do parlamentar mato-grossense, quando denúncias envolvendo pessoas que ocupam posições de enorme poder institucional surgem e não recebem qualquer tipo de resposta formal, cria-se para a sociedade a percepção de que existem autoridades submetidas a regras diferentes das aplicadas ao restante da população.
“Vai banalizar tudo. Aí pode fazer tudo porque quem tem poder, quem tem força consegue e quem não tem se ferra”, disparou.
Crise ultrapassa os limites do STF
O caso ganhou ainda mais dimensão política depois que parlamentares passaram a pressionar o Senado por providências.
Pedidos de impeachment contra Alexandre de Moraes ganharam novo impulso depois da divulgação do relatório, enquanto outras entidades e representantes da sociedade civil também passaram a defender esclarecimentos mais profundos sobre os fatos.
Nesta quinta-feira (3), a crise continuou produzindo reflexos dentro do próprio Supremo. O tribunal ainda discute como tratar institucionalmente o material revelado e se os elementos deverão resultar em uma investigação formal.
Ao mesmo tempo, há questionamentos sobre os procedimentos adotados pelo ministro André Mendonça, relator dos inquéritos relacionados ao Banco Master, o que ampliou a tensão entre integrantes da Corte.
O caso coloca o STF diante de uma situação especialmente sensível: decidir como investigar informações que atingem diretamente um de seus próprios ministros sem comprometer as garantias legais, mas também sem transmitir à sociedade qualquer aparência de corporativismo.
Max cobra resposta das instituições
Para Max Russi, é justamente neste momento que o Senado precisa exercer sua função constitucional.
O presidente da Assembleia de Mato Grosso não antecipou julgamento sobre eventual responsabilidade criminal do ministro, mas deixou claro que considera inaceitável que as revelações simplesmente desapareçam da agenda institucional sem uma análise formal.
A defesa de Russi é pela abertura dos mecanismos legais existentes para que os fatos sejam apurados e, posteriormente, julgados pelas instâncias competentes.
Na prática, sua manifestação representa uma das mais contundentes cobranças feitas por uma autoridade política de Mato Grosso desde que o material envolvendo Vorcaro e Moraes se tornou público.
Mais do que uma crítica pessoal ao ministro do Supremo, Russi direcionou sua cobrança principalmente ao Senado Federal, instituição que possui competência constitucional para processar e julgar ministros do STF nos casos previstos em lei.
Para ele, a credibilidade do próprio Parlamento está em jogo.
Em meio a novas revelações, questionamentos jurídicos, pedidos de impeachment e divisões internas na Suprema Corte, o presidente da ALMT resumiu sua posição em uma cobrança direta: diante da gravidade do que está sendo revelado, as instituições precisam responder — e o Senado não pode simplesmente assistir aos acontecimentos.
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