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O PSG e a maldição do dinheiro aleatório

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O clube de Paris pretende viver dos uros sem nunca ter corrido atrás do ônibus

Assistindo a mais um fracasso internacional do Paris Saint-Germain, que acabou eliminado da Champions League após levar uma surra técnica e MORAL do Real Madrid, me foi impossível não lembrar de um vizinho de tempos distantes. No fim dos anos 80, com inflação galopante, ele ganhou uma grana por indenização trabalhista, o que seria hoje uns 30 ou 50 mil, comprou um Corcel I e disse que dali em diante pretendia viver do JURO.

Em algumas manhãs de domingo, se percebia que ele chegou a desfrutar da situação, pois preparava o chimarrão e entrava no AUTO com toda a pompa, cercado pelas crianças em êxtase. Então, dirigia uns cinquenta metros e o deixava estacionado em frente ao supermercado que ficava na esquina oposta à sua casa, descendo do carro para jogar conversa fora e aproveitar o rebuliço que antecedia os churrascos da vizinhança.

Todos que sabiam das circunstâncias que permitiam aquela rotina de bon vivant suburbano, estacionando um Corcel assim, como quem não quer nada, em uma gloriosa manhã de domingo, no entanto, tinham certeza do que o futuro não muito distante lhe reservava. De fato, uns meses depois, presenciei com certa tristeza o desmoronar do sonho daquele homem, quando, às sete horas de um dia qualquer, o observei saindo esbaforido, camisa branca e calça social, para não perder o imprevisível e sempre caótico ônibus que o levaria novamente ao trabalho, o moedor de almas diário que aguardava mais um naco de carne: um espírito atrevido que sonhou com a divindade pagã embalada pelo ócio sem culpa.

Essa pequena tragédia cotidiana reapareceu de forma absoluta quando Cristiano Ronaldo marcou o primeiro gol do clube espanhol, mas demorei para perceber a natureza da relação entre o milionário clube francês e aquele homem comum, que entendia muito da vida ou muito pouco de economia doméstica. Me parece que é uma questão de caminhos e objetivos — quem merece o que neste bacanal de possibilidades que vivemos sobre a terra.

Ao contrário daquele Dionísio metropolitano, que pretendia aproveitar um futuro suculento devido ao laburo anterior, o supertime de Paris exige a felicidade imediata e se julga no direito de reivindicar a Champions League sacando o cartão de crédito da carteira qual uma navalha. Empilhou um monte de nomes de relevância mundial, soterrou-os com Neymar e cruzou as pernas de forma indolente para exigir que o sucesso viesse sentar no colo.

O PSG e a maldição do dinheiro aleatório

Esqueceu-se o PSG que, antes, uma história precisava ser construída. Montou um time que é maior que o próprio clube, e nem funciona como equipe,  e faz questão de ignorar que sempre foi um notório coadjuvante do futebol mundial (e até mesmo do futebol francês) e que, nas situações mais crespas, sua camisa é imune à lei da gravidade: pesa tanto quanto o pensamento de um pardal.

Porque a bonança só tem sentido se há um passado para servir de ponto de ruptura. Aquele homem na estrada, que viveu dias de insano hedonismo, o qual percebo mais genial a cada linha parida, talvez tenha feito uma escolha: de fato, viveria do juro – até quando desse. A vida lhe devia isso – era sua Libertadores, sua Champions League. Como os grandes clubes que passam por imensos jejuns, suportados de forma estoica até a libertação. Antes de exigir o topo com a arrogância dos nascidos em berço de ouro, o clube parisiense tem que aprender a sofrer. Tem que aprender a ser grande, o que vai demorar mais uns 87 anos, segundo cálculos meus.

O PSG quer viver do juro sem nunca ter corrido atrás do ônibus. Longe de mim fazer apologia ao trabalho, que nunca fui disso, mas a maldição destes dinheiros que aparecem como cães perdidos, como os investidores de clubes, as heranças familiares e as loterias de um homem só, é que eles não têm uma história. E é justamente esta aleatoriedade que deixa qualquer um desnorteado, seja o ganhador solitário da Mega-Sena que se atira de uma ponte no réveillon, seja o torcedor mimado do PSG, que acende o pisca-pisca acreditando que vai conseguir transformar em um riscar de isqueiro a boutique do Parc des Princes na versão mais antológica do Defensores del Chaco. Falta sofrimento. Falta alma. Falta história. E falta caminho trilhado. Depois de tudo isso, repetidas vezes ao longo dos anos, quem sabe algum dia o Paris Sain-Germain possa reclamar o direito de estacionar seu Corcel na frente do supermercado.

Fonte: MidiaNews

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